28 fevereiro 2009

Ponto de situação II

tintas

Terminada que está esta semana de férias (ainda pondero estendê-la até à próxima terça-feira), posso afirmar que estou bastante satisfeito com o investimento que fiz. Tenho em média trabalhado mais de 5 horas diárias no atelier (esta passada noite, depois de um simpático jantar no "Sabor Mineiro" e de um café em minha casa, com três amigas e colegas de curso, fiquei a pintar até depois das cinco da manhã)
Tenho prontas três telas de 200x160cm e iniciadas duas ou três mais pequenas.
Disse (porque assim pensava) que a tela vermelha estava "pronta", mas sentia que ainda faltava alguma coisa, que era pouco...

comunicare

Acredito já ter apanhado o fio à meada, tenho o motivo e a forma relativamente bem definidos, para o que pretendo vir a fazer.
Estou cansado, mas motivado!

27 fevereiro 2009

Não há pachorra!*

Embora várias amigas digam que me invejam, já me falta a paciência… é demais… já não tenho 20 anos! Anda sempre à minha volta, quase não respiro.
À noite olha-me com olhinhos de carneiro mal morto e enrosca-se em mim no sofá. De Inverno ainda me sabe bem, mas de Verão, valha-me S. Agapito, é de loucos!
Se me queixo, amua, revira os olhos mas, passados alguns instantes, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes!
Claro que me agrada a sua pele macia e sedosa, encostada a mim, numa osmótica carícia. É bom vê-lo quando adormece, tão entregue, tão indefeso, tão tranquilo, no fundo tão dedicado.

Sim é bom, mas o pior é na cama! Na cama é demais:nem me consigo tapar, encosta-se a mim, enrola-se nos cobertores e ressona. Eu puxo, eu empurro e para conseguir conquistar uns míseros cinco centímetros, fico a transpirar.
Se o empurrão é mais forte, emite uns sons esquisitos, mas fica quase sempre no mesmo lugar. Já lhe disse várias vezes:
- O quarto tem duas camas, e se continuas assim, eu mudo para a outra cama e ponto final.

Não há pachorra, este gato dá-me cabo do juízo!!!!


*Gasparina - Contista convidada para o Conto à Sexta desta semana.

20 fevereiro 2009

Rosas


helpless

São rosas, senhor…, disse a vendedeira, ao mesmo tempo que se ia preparando para tirar do regaço uma folha de papel de alumínio destinada ao ‘arranjo’. Não, minha senhora, não esteja a tirar as rosas que eu não quero…, disse, pouco convencido. Mas já viu como são lindas? insistia, E a sua Senhora de certeza que vai gostar!…
Cedendo, acabou por levar três lindos botões, que nunca chegariam a abrir, embora naquele dia estivesse convencido que desabrochariam como nenhuns outros antes e isso é adivinhação, saber das coisas antes delas acontecerem.
Subiu as Escadinhas do Duque e nem lhe pareceram muitos degraus, de tão distraído que estava com o amarelo das rosas. Chegando ao cimo, percorreu todo o Largo com o olhar e, como calculava, esperou apenas alguns minutos. Ela chegou, deu-lhe um beijo, recebeu as rosas e apenas disse São bonitas!…
Com as rosas numa mão e a mão dele noutra, ela desceu até à Brasileira e ele seguiu-a. A esplanada estava cheia, por isso esperaram, já sem as mãos trocadas, encostados à estátua do Poeta Chiado, por aí terem mais privacidade. Sabes, disse ela, Tenho uma coisa para te dizer…, apesar de não lhe conhecer aquele tom de voz, ele sentiu um calafrio. Quando a pausa, entre as palavras que ela ia dizendo, deixou de ser pausa para ser intervalo, ele disse Diz lá!… Descobri que não te amo, disse ela de uma só vez, como se tivesse estudado cada palavra, para não se enganar. Gosto muito de ti, mas… Não acredito!, interrompeu ele, já com os olhos avolumados pela notícia e continuou, numa cadência decrescente, Não acredito que me estejas a dizer isso…, e esperou nela o eco das suas palavras. Com o olhar dela fora de alcance da procura dos olhos dele, ela continuou mesmo sem querer, Eu queria que percebesses, mas já sei que não te consigo explicar… Desculpa… Mas…, continuava ela e ele negava o que ouvia, com lentos gestos de cabeça.
Ela quis confortá-lo, mas não encontrou forma de o fazer, até porque não existe forma, numa situação destas.
Ele ficou encostado àquela pedra, que minutos antes ainda era pedestal de escultura e não lhe dirigiu mais o olhar. Ela levou as rosas, mas só as suportou até à esquina seguinte, porque elas lhe queimavam as mãos. Ele, minutos depois, encontrou-as no chão, apanhou-as e também se queimou.
Ela arrependeu-se e ele não soube.

18 fevereiro 2009

Sessão da Meia-noite

Depois da sempre generosa companhia e de um belíssimo jantar.

É difícil adivinhar para quem vai o Óscar. A concorrência, este ano, é feroz!

Eu é que já não tenho idade para dormir apenas 4 horas...

16 fevereiro 2009

Vivo

tagete

Nem imaginam o prazer que é voltar a sentir aquela terrível vontade de sair do trabalho e voltar imediatamente para casa, para o atelier.
Hoje (praticamente) acabei (solucionei) a tela sobre a qual, na última semana, tenho estado a trabalhar. Devido a um problema (espero que não seja avaria) com a "tomada" de saída da máquina fotográfica, não posso mostrar como ficou, mas "tórgulhoso"!

Correspondência

nolose
"No lo sé" - Técnica mista s/ papel - A3, 1996

“Confundem-me certas palavras. As que se extinguem depois de ditas e as que continuamente se renovam, nos significados e nas intenções. Desequilibrada e injusta é esta minha necessidade de todas elas, quando comparada ao seu displicente consentimento em se deixarem usar. Luta desigual é esta. Aliás, luto eu e elas encolhem os gráficos ombros, num magnânimo e maternal gesto. Apagar-se-á esta minha vida, sem que realmente conheça o absoluto significado de uma milésima parte delas, sequer.

Misteriosa é a Existência, na sua essência. Serve-me de consolo a ilusão do conhecimento, quando invadido pela melancolia que me traz a certeza do desconhecimento. Escrevo e reescrevo cada frase, esperando assim encontrar os elos que me faltam.”

28 de Julho de 2000

15 fevereiro 2009

Quem me dera que amanhã fosse Sábado.

Seis horas de ateliê (continuo a não gostar desta forma de escrever... "atelier"...),

~multitude B

repartidas com algumas tarefas de jardinagem e, ao fim do dia:



(vou tomar um Voltaren)

14 fevereiro 2009

13 fevereiro 2009

Convento da Encarnação



Supostamente, irei expor alguns trabalhos nos Claustros deste Convento.
Será que num mês e meio consigo preparar alguma coisa de jeito?

Mais informação no Blog "Esta Lisboa que eu amo"

Solteiro


sky belem

Inevitavelmente, a partir de um certo dia, Henrique começou a confrontar-se com os anos que já contava. Tinha chegado àquele momento em que já se é velho para as crianças e em que se ainda é jovem para os mais idosos ou seja, algures entre os 30 e os 60. Henrique sempre fora um solitário, pelo menos perante o olhar curioso dos outros.
Os solteiros fazem parte de uma raça que procura quase sempre a companhia dos seus iguais, julgando assim livrarem-se da nem sempre silenciosa exigência dos não-solteiros para abandonarem esse estado de graça e também de desgraça, concluiu ele tantas vezes e concluir não é tão definitivo como à primeira vista pode parecer.
Voltando à questão inicial, Henrique começou a atravessar o que vulgarmente se chama de crise existencial, que é algo complicadíssimo para quem a vive e sempre fácil de resolver, para quem está de fora. Claro que isto de crises existenciais não é exclusivo da raça dos solteiros e já houve quem jurasse ao Henrique que as dos não-solteiros são muito piores de atravessar. Não se sabe se ele acreditou ou se quem lhe disse tal também acreditava no que dizia, mas aqui fica o registo, para que conste.

Passou tempo.
A tristeza e a solidão são lâminas para engolir e ele sentiu-o profundamente.

Passou mais algum tempo. Algum que, para ele, foi muito.
Nada se passou.
Agora não se lembra quantos dias ou quantos meses foram, porque nada, em cinco meses, é o mesmo que nada, em cinco dias. Uma crise existencial é como um oceano para atravessar, sem bússula, estrelas ou planetas.
Depois da tempestade vem sempre outra coisa qualquer, o que na realdidade não é muito consolador, porque depois dessa coisa qualquer, vem sempre outra tempestade. Apesar disso, Henrique julgou já ter passado todos os seus dias de tormenta.
Uma semana depois de qualquer um destes dias passados, conheceu Amália e gostou dela, como se gosta de um rio, quando se gosta de rios. Nos dias seguintes imaginou navegar nela, conhecer-lhe as margens e prometendo a si mesmo que não naufragaria.
Amália nunca tinha tido nenhuma crise existencial, talvez por não ter a consciência da sua existência, das crises e da sua própria. Aí residia o seu grande encanto. Abandonava-se ao tempo discretamente, como o rio imaginado por Henrique e maior sintonia não poderia haver entre a entrega de um e o desconhecimento do outro.
Não se sabe por quantos meses ou anos navegaram, mas fizeram-no como se os rios não tivessem cais. Ele, durante esse tempo, esqueceu-se dos anos à deriva e ela imaginou sempre que haveria um mar, longe.
Já sabiam de cor as marés, os levantes, as borrascas e as acalmias. Descobriram que a proa às vezes pode não ser à frente e que o quotidiano afinal é tão importante.

Ninguém soube desta viagem, nem quando acabou.
Ele regressou às sensações habituais e ela continuou sem saber o que eram crises existenciais.

Julho 1994

09 fevereiro 2009

Gravata de estimação


ez look

Pões-me à volta do teu pescoço,
mais para um lado que para o outro.

Passas-me por cima,
depois por baixo,
depois novamente por cima
e... ainda não está bem.

Seguras-me e rodas sobre mim,
deixas que minuciosamente te reveja o pescoço
e o acaricie uma vez mais.

Sorris de prazer e eu tento manter-me aprumada.
Ajeitas-me de uma forma tão suave e finalmente dás-me o nó.

Depois apertas-me,
ajustando-me a ti.

(já sei que sou a tua gravata de estimação...)


Julho 2000

Sunshine


kalanchoe longiflora flowers
kalanchoe longiflora

Boa Semana. O dias de Sol vão regressar.

05 fevereiro 2009

O Corvo e o Sol


horizonte

Eram três irmãs, eram três irmãos. Nunca se encontraram porque o destino, caprichoso, embora sabendo o quanto poderiam ser felizes juntos, lhes tornou os caminhos tortos em direitos e os direitos em tortos e não os apresentou entre si. Elas viviam para lá de Barcelos, que é tantos sítios, e eles na Ilha do Corvo, que só pode ser ali.
José e Maria eram os nomes dos progenitores de todos, o que não é original mas eles gostavam e é isso que interessa. As Marias foram virgens para o casamento e os Josés não, mas elas não se importaram e eles não se questionaram. As filhas de José e Maria nasceram nos mesmos dias que os filhos de Maria e José e eram louras como o Sol, exceptuando a mais nova que de tão morena, era julgada, por quem costuma julgar estas coisas, filha de outro, embora Maria nunca tivesse conhecido outro homem, em toda a sua vida de fertilidade. Os filhos do Corvo, como era conhecido o José na sua ilha, porque a ilha é de quem lá consegue permanecer, eram morenos como o pai, exceptuando o mais novo que, de tão alva a pele e amarelo o cabelo à nascença, juravam que tal criança nunca vingaria.
Todos as tardes as filhas de José e Maria e os filhos de Maria e José se sentavam a olhar o mar, chovesse ou fizesse sol. Eles virados para lá de Barcelos, porque era dali que surgia o sol e elas viradas para a Ilha do Corvo, porque era para ali que o Sol ia. Nenhum deles sabia porque o faziam, mas gostavam de o fazer e, uma vez mais, é só isso que interessa.
Um dia, a filha mais nova de Maria para lá de Barcelos adoeceu e o filho mais novo de José também. Ela com uma pneumonia e ele de tristeza, maleitas que só desapareceram quando Nossa Senhora dos Aflitos atendeu os pedidos das Marias, suas devotas, e os curou. A ela proibiram-lhe o "chegar perto do mar", de Inverno, de Primavera e de Outono, não fosse ter uma recaída, porque toda a gente sabe como são as recaídas. Com tal proibição, voltou a adoecer mas desta vez de tristeza. A ele nada lhe proibiram, porque o que é que se pode proibir para evitar uma recaída no mal de tristeza? Que se comportasse de maneira diferente dos irmãos e dos da sua geração já era aceite por todos, mas que insistisse em encontrar, caminhando, uma saída naquela ilha, era difícil de compreender.
Para lá de Barcelos, a filha morena de Maria e José também procurava uma saída, isolava-se bastante e, quando podia, fugia sempre em direcção ao mar e confundia-se com as gaivotas junto ao rebentar das ondas. Era a sua brincadeira preferida, correr para a água, só parando quando esta lhe encontrava os pés. Julgavam que o fazia por ser criança, enquanto o foi, mas depois habituaram-se simplesmente ao seu comportamento.
O tempo passou, como só ele sabe passar e chegou o dia em que os filhos mais novos de Maria e José e de José e Maria completaram trinta anos. Ninguém sabe porquê mas, naquele ano, a ambos fizeram grandes festas. Todos se divertiram, que é para isso que servem as festas. Todos, menos o filho alvo do Corvo que não gostava de festas, por nem sequer nas suas se sentir convidado. Também por essa razão, a meio da festa, resolveu ir até à Rocha dos Mouros (já poucos sabem porque tem aquela rocha esse nome) e ali descansou da caminhada e do resto. Sempre são mais de cinco quilómetros e a vida também cansa... Depois, num acesso de loucura, disseram os mais velhos, atirou-se ao mar e nunca mais ninguém o viu.
A filha morena de Maria e José, que sempre pedia que o seu aniversário, ou fosse o que fosse, se festejasse à beira-mar, para lá de Barcelos, naquele dia deixou que o mar lhe agarrasse primeiro os pés e o resto do corpo logo a seguir. As ondas depois de brincarem com ela não a devolveram, nem ela quis.

Deles nada mais se sabe, excepto que em duas se partiu a Rocha dos Mouros e que raramente se vêem ondas naquela pequena enseada, onde certos pequenos pés brincavam.


2000

Esta semana : "O Corvo e o Sol"

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o Conto à Sexta, vai ser à Quinta!

04 fevereiro 2009

Estou como o tempo


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A verdade é que ultimamente estou parco em palavras e se "uma imagem vale mil palavras", escuso de vos maçar com textos que, embora não sejam longos... parecem longos! São uma espécie de perni...longos!
Existem muitas explicações para o facto de estar a fazer "renascer" estas imagens, quase tão antigas quanto alguns dos visitantes do Jardinagens, e todas são válidas, embora diariamente variem de peso em todo este processo.

Diz o povo (mesmo aquele que já não lava no rio): "Estou como o tempo!"