31 janeiro 2009

let me be


sedum album

Um pouco de azul

riphsalys policarpa buds
riphsalys policarpa

As pessoas, às vezes, têm comportamentos estranhos: aproveitam qualquer oportunidade para projectar nos outros todo o seu conflito interior, vitimizando-se, arranjando novas frentes de combate, fugindo do que realmente as incomoda.
Claro que todos temos diferentes formas de lidar com os problemas. No entanto, no que diz respeito à relação com os outros e no que me diz respeito, odeio mal-entendidos. Prefiro que me digam imediatamente, ou na primeira oportunidade, que não gostaram de algo que eu tenha feito ou dito, para que se possa esclarecer o sucedido, do que "fermetem", "confabulem", imaginem, visceralmente se zanguem e me apresentem as coisas como um "facto definitivo e consumado"!

Como se diz em Espanha:
"A Água clara e o Chocolate Espesso!"

30 janeiro 2009

Encontro

Summer 2004



Entre Cortumes e Alviste não existia riso mais sonoro e ao mesmo tempo mais contagiante que o de Manuela. Entre Alviste e Pontadas não havia choro mais angustiante e piedoso que o de Raúl. Quando um dia uma prima comum se casou, convidou-os a ambos para a boda e aí se conheceram. Ela riu-se e ele fez beicinho. Durante a cerimónia de casamento, Manuela, que achava graça a tudo o que o padre dizia, só com as contínuas cotoveladas da sua mãe, tia de sua prima, se controlava. Quando os noivos disseram o Sim, ela deu uma gargalhada e todos os convidados serviram de coro ao seu riso solo. Todos, menos Raúl que, talvez espantado com tudo aquilo e apesar de ter fungado o tempo todo, naquele momento se calou.
Quando a cerimónia acabou, Manuela foi a primeira a sair da igreja e da sua mala de mão tirou um saco de arroz, que parecia maior do que a própria mala. A todo o custo, queria ser a primeira a desejar riqueza aos noivos e tudo o mais que se pode desejar, quando a alguém se atira punhados de arroz. Claro que o entusiasmo fez com que, mesmo antes de eles cá estarem fora, ela começasse a despejar o saco e, tendo a certeza que sua prima e o seu novo primo eram os próximos, encheu generosamente a sua grande mão e… tomem lá primos! Mas era Raúl quem vinha a sair, para fugir à confusão.
Até hoje ninguém consegue perceber como conseguiu ela encher-lhe a boca de tanto arroz. Se pela sua acidental pontaria, se pela boca aberta dele, ao soluçar.
Manuela, quando deu pelo sucedido, riu-se mais ainda e Raúl, de surpresa, calou-se e nem cuspiu o arroz, o que a fez dobrar o indobrável riso, provocando uma saída mais apressada da igreja de todos os convidados, que querendo descobrir o que se passava, empurram Raúl da porta da igreja e que, só nesse momento, se livrou do malfadado arroz.
Quase ninguém percebeu o que se tinha passado. Manuela, embora quisesse, não o conseguiu explicar, porque ria cada vez mais ao lembrar-se do ar de Raúl, que parecia um daqueles ratos que ela uma vez viu numa loja da cidade e que ficam com as bochechas cheias de comida, a olhar para quem olha para eles.
O casamento e a boda, para conveniência dos convidados que eram metade de Cortumes e metade de Pontadas e para além disso viriam a pé a maior parte do caminho, teve lugar em Alviste. Durou um dia só, porque não havia como instalar os convidados e as famílias também não eram suficientemente abastadas para que assim não fosse.
O almoço começou quando já todos tinham vontade de jantar. O Estio governava o céu, o que lhes permitiu ficar até mais tarde e poderem chegar sãos e salvos a casa, livres dos ataques dos lobos que por aqueles montes ainda existiam. Raúl, apesar do que se possa pensar, era destemido e não tinha medo de lobos. Quando já a maior parte dos convidados tinha saído, Raúl ofereceu-se para levar Manuela a casa e ela aceitou, mas não sem antes, com os seus grandes olhos brilhantes, ter pedido consentimento aos mais velhos que ali estavam presentes, levantando-se e saindo somente quando o Raúl disse É tarde.
Estava amena a noite e presente a Lua que, embora partida, iluminava bem todos os mais carreiros, que caminhos. Manuela, que tudo queria ver na terra e no céu, tropeçou numa pedra e caiu, torcendo um pé. A partir daí, só ajudada pelo Raúl conseguiu andar e meia de caminho, que faltava ainda, chegou para que, nos braços dele, ela sentisse ternura e protecção. Então, sem dizer uma palavra, deu-lhe um beijo e ele gostou tanto, que sorriu. Nem a Lua brilhava tanto quanto o seu sorriso. Ao ver isso, Manuela comoveu-se e chorou, chorou o sorriso dele.
Agora entre Cortumes e Pontadas não existe maior felicidade que a de ambos.


Julho, 1994

Se pudesse...





... ser assim.

29 janeiro 2009

Todas as minhas ruas têm o teu nome*



Todas as minhas ruas têm o teu nome.
E é por isso que estou perdido.

Os únicos números que encontro são os dos dias
que estão nos umbrais das portas, que abres e fechas de seguida.
Ilusoriamente perpetuo-me, rabiscando as paredes, que em ti são de cal.
E, cheio de sentimentos nobres e indigentes, corro tanto.

Um, dois, oito, doze, dezoito, vinte e três, trinta, quatro, seis, sete, nove.
Já aqui estive.

Só mais uma vez...


*1997?

Indelével*



Nunca me esforcei para esquecer esses anos de calor persistente e cheiros incontornáveis. Esqueci-me, simplesmente. A maioria das pessoas acha isso estranho e exige-me lembranças dolorosas, cicatrizes emocionais.
Sinto-me culpado. Culpado por não ter pesadelos que me persigam noites a fio.
Mas há marcas que em mim são indeléveis: o abraço frágil e inseguro do filho que já não me conhecia, o meu nome na boca da minha mulher, o meu pai que já não estava, o choro desamparado de minha mãe, o vermelho dos cravos, que ainda escorria pelas paredes e o ter encontrado um país novo, tão próximo dos meus sonhos.

*"Uma Guerra 100 Palavras"- Concurso DN 1998?

28 janeiro 2009

Harvey Oscar Milk



A sensação é estranha, principalmente porque nunca nos conseguimos esquecer do facto de estarmos a "assistir" a um recente e verídico acontecimento. Claro que é um filme, um bom filme, com a irrepreensível interpretação do Sean Harvey Milk Penn, mas também é uma declaração de revolta, cíclica, actual, eterna.

"Estou aqui para vos recrutar!", dizia Harvey Milk.
A guerra contra o preconceito nunca terminará.

Longe


Praga
Praga, 2003

Para acompanhar...

gift

...o presunto!

(quem a ofereceu insistiu para que a abrisse numa próxima oportunidade mas, mais semana menos semana, fica à espera dos convivas, para quem já estava destinado!)

Tantos *

Eram duas vezes um rapaz. Era uma vez uma rapariga.
Já só tens três minutos, dizia-lhe o relógio, e ele apressava o apressado passo e quem o olhava não percebia para onde ia, aliás, nunca ninguém percebe para onde alguém vai e também já ninguém se importa.
O Cais do Sodré está mesmo ali e o comboio, inevitavelmente, a esta hora, está cheio. Se ela não se atrasou, está, como sempre, na última carruagem, porque acredita piamente que os acidentes vitimam principalmente quem vai na carruagem da frente, o que, se pensarmos bem, tem a sua lógica.
Ele chegou, silenciosamente ofegante, e o seu primeiro olhar, depois de se desviar da porta que o queria tragar, foi para ela, ou melhor, para o sítio onde ela costumava estar. E estava, mas não sozinha. Só que ele não sabia, ela não sabia e ele não sabia. Ele não sabia que outro ele estava com ela, como ele estava. Amar é só ter olhos para quem se ama e não também para quem ama quem se ama, aí é preferível ter torpedos, por isso ninguém sabia de ninguém. Ele não sabia que o outro a amava, o outro não sabia que ele a amava e ela não sabia que ambos a amavam. Parece complicado, mas não é.
Tanto tempo esperou ele, quer um quer outro, até se resolver a tomar qualquer atitude reveladora do seu amor, que ela, um dia, desapareceu.
Voltaram a vê-la, quando se lhes terminou a frustração deles e a gravidez dela.

*quase-contos, 1999