29 de Julho 2009 0:51 Procuro razões dentro de mim. Procuro tudo dentro de mim.
11:41 Sempre fui um ser atormentado. Utilizo o vocábulo no seu sentido mais lato, no seu sentido romântico, no meu próprio sentido. Os meus quase quarenta e seis anos permitem abençoadamente que me aperceba um pouco da minha natureza e, assumindo-a, possa assim com ela conviver da melhor maneira possível.
14:40 De uma certa forma, a vida nunca me foi fácil, porque a vida, quando é vida, não é fácil. Desde que às palavras comecei a conseguir dar algum sentido, que iniciei uma espécie de mapeamento da minha própria existência, estruturando-a fora de mim, como se de uma teia se tratasse. Hoje, ao ler algumas das centenas de páginas que escrevi (em conjunto com o que desenhei e pintei), chego a duvidar de que o tempo se mova à mesma velocidade de outrora, pois a voracidade dos minutos de agora em nada se assemelha à complacência dos segundos de quando eu tinha vinte anos.
Seis e vinte e nove da manhã. Acordou um minuto antes do despertador, como já se tornava rotina, tantos são os dias iguais. Cumpria escrupulosamente o horário de trabalho, embora não lhe agradasse ter de fazer aquele tipo de serviço, principalmente porque as pernas já lhe pesavam e lhe rareava a paciência para lidar com alguns dos clientes da tarde, que não sabem quando parar de beber. Trabalhar das sete e trinta até às onze e trinta da manhã e das cinco da tarde até às nove da noite era um horário que lhe agradava, porque lhe concedia algum tempo para tratar de alguns assuntos, andar pela cidade como se estivesse de férias e também para se encontrar com conhecidos e cruzar com desconhecidos. Considerava-se uma pessoa com sorte, apesar de nem o dinheiro nem os amores lhe serem totalmente favoráveis. O que se tinha passado ontem, tinha-o deixado mais perturbado do que ele imaginaria. Já há muitos meses que a sua relação com a Luísa tinha acabado, mas ela suplicava-lhe que não a deixasse porque tudo se resolveria. O facto de ela morar a algumas centenas de metros do Tágides, tornava tudo mais complicado. Ele via-a quase todos os dias, porque ela não conseguia evitar por ali passar e olhar e parar, até que tivesse a certeza de por ele ter sido vista. Ontem, após a vigésima tentativa de terminar a relação entre os dois, ao sair lá de casa e enquanto descia as escadas, ouviu dela um único grito, que simultaneamente era também um lamento e temeu pela loucura dela, que desavergonhadamente se anunciava.
Quando saiu para a rua, mesmo em frente à porta, do outro lado da estrada, estava um tipo a fotografar o prédio. Olhou melhor e pareceu-lhe reconhecer aquele rosto, mas seguiu em frente. Tinha pedido ao patrão que o deixasse chegar um pouco mais tarde, porque tinha alguns problemas pessoais para resolver, mas não queria abusar, porque quem usa e abusa... não usa mais! Uns dez minutos depois de ter chegado ao Tágides, chegou também o fulano que tinha estado a fotografar o prédio. É isso, pensou, afinal é daqui que o conheço. Já há muito tempo que aquele cliente frequentava a esplanada e não fora a situação emocionalmente desgastante que acabara de acontecer, tê-lo-ia reconhecido imediatamente. Sentava-se quase sempre à mesma mesa e pedia sempre um café e uma água ou, com menos frequência, apenas um martini. Na maioria das vezes tem como sua única companhia um caderno, no qual escreve frases soltas. Que fará este tipo? Pensava ele, entre os pedidos da mesa 2, da 8 e da 15. “Sai um croissant sem creme e um Ice Tea!!” Já tinham trocado alguns olhares, mas eram olhares de cumprimento, perfeitamente naturais entre quem frequenta o mesmo local, durante um certo período de tempo. José era um tipo observador e um homem do caderno também. Ele sabia que existe uma condição universal que nos remete para um lugar concreto: Nós somos apenas e sempre mais um outro, no mundo dos outros.
Por entre conversas de namorados, discussões futebolísticas e acalorados discursos sobre o mau estado da Nação, lá conseguiu escrever duas páginas que, de tanto anotadas e riscadas, pouco sentido poderiam ter para qualquer outra pessoa que não ele próprio. O Tempo, na escrita, sempre foi para ele um tema de eleição. Sentia que, escrevesse o que escrevesse, nunca dele se afastaria porque, para as palavras existirem, para que as possamos ouvir ou ler, para que em nós façam surgir qualquer tipo de sentimento, necessitamos permanentemente dele, do Tempo, como incontornável suporte para a vida. Aliás, a maioria das palavras, escritas ou mesmo ditas, remete-nos para o Tempo e para o Espaço, “Tempo e Espaço”, pensou, “Espaço e Tempo”, “E” e “T”... Ficou mais algum tempo a pensar no que lhe sugeriam aquelas letras e, como se fosse um jogo, resolveu procurar as palavras que, nas frases soltas que já tinha escrito, o remetiam para essa problemática de “E” e “T”. Chegou num ápice à conclusão de que já esperava: mais de metade das palavras que escrevera estava impregnada de Tempo, prenhe de Tempo, numa espécie de simbiose eterna, recriação permanente. E reescreveu-as uma a uma, até ficar cansado. Horas. Sucediam-se. Ensaiou. Saíam. Passava. Escreveu. Pensou. Tocou. Consumia. Pousou. Abandonou. Momento. Iniciou-se. Espera.
Tudo o colava ao Tempo e o tempo colava-se a ele, como um caprichoso parasita.
Voltou para casa, percorrendo cada metro, horas antes palmilhado. Tinha traçado mentalmente, a esquadro e compasso, todas as rectas, curvas e até hipérboles, que em sentido inverso antes desenhara. No entanto, exceptuando distância relativa, nada conseguiu subtrair, nem tempo, nem sensações, nada. "Na Vida não há subtracções, apenas somas, mesmo que sejam somas de perdas", pensou. Só quando fechou a porta de casa é que se apercebeu de que tinha feito o percurso sem se ter lembrado de olhar para as indiscretas janelas, penduradas naquela fachada de azul claro. Sentiu-se tremendamente volúvel. Pousou a mochila no chão, tirou de lá o caderno, que colocou na pequena mesa que está perto da janela da sala e dirigiu-se para o quarto, fingindo que estava cansado. Na realidade, o que lhe apetecia mesmo era dormir e gastar tempo e não lhe interessava os conselhos do travesseiro ou o poder reparador do sono, apenas desejava "Não Estar". Era já recorrente este seu desejo, principalmente em situações de encruzilhada, nos momentos em que as opções se assemelham a rifas com prémios dúbios, que somos obrigados a levar connosco. Cansaram-se dele as horas e acabou finalmente por adormecer.
Sentou-se na cadeira da esplanada, local que lhe agradava sobremaneira por poder optar entre estar sozinho ou observar com alguma tranquilidade quem por lá passava. Ter virado à direita quando saiu de casa ou ter caminhado cerca de trinta minutos até àquele “porto de abrigo”, não tinha passado de um gesto que o hábito cristalizou. No entanto, algo tinha sido diferente naquele dia. Apesar de ter tantas vezes feito aquele percurso, sempre que não tinha de ir trabalhar, notou que algo estava diferente. Depressa de apercebeu de que a diferença não estava no grito ou riso ou lamento, nem sequer nas janelas que, curiosas, olharam para ele, mas sim nele próprio, porque não há nada mais transformador do que o Olhar. Tirou da mochila o pequeno caderno, também o lápis e esperou que o empregado por ali passasse. Não estava com pressa e também não queria usar o perpetuado “olhefáxavor”, acompanhado de um levantar de braço. E esperou um ou dois minutos, até ter ao seu lado o empregado de mesa, a quem pediu uma Água gaseificada. “Sai uma, com gás!”, disse ele, dirigindo-se ao colega que estava por detrás do balcão. Ao contrário de outros empregados, este, que se chama José, não vocifera os pedidos. Tem a voz bem colocada e projecta-a, como se num palco estivesse. É um tipo estranho, muito vivo mas discreto.
A água chegou antes mesmo de ele ter conseguido escrever duas ou três palavras no paciente caderno. Nem todas as palavras são como as cerejas, há algumas que têm um difícil parto e outras que morrem prematuramente. Construir um texto com palavras seguras e saudáveis é apanágio de apenas alguns. As palavras possuem uma personalidade vincada e mordem a mão a quem displicentemente as utiliza. Começou por rabiscar alguns gatafunhos, antes que surgisse qualquer frase. Fazia sempre isso, não que tivesse qualquer habilidade para desenhar, mas por acreditar que assim as palavras se sentiriam mais aconchegadas, tal como acontecia junto do Era uma vez... nas histórias que lia em criança. Ele sabia bem a dificuldade de começar a escrever, já o tinha tentado centenas de vezes e muitas delas lhe tinham deixado algum tipo de marca, que geralmente era de frustração. Esse era um sentimento que sempre o tinha acompanhado e ele tinha que o assumir como familiar, porque a família não se escolhe, calha-nos!
De repente, lembrou-se do que se tinha passado há cerca de uma hora atrás e pensou em escrever precisamente sobre isso. Mas, ao mesmo tempo, também isso lhe parecia muito pouco e ele não era nem detective, nem jornalista, para além de lhe causar um certo pudor utilizar-se do infortúnio alheio para conseguir escrever meia dúzia de páginas, que inevitavelmente iriam acabar no fundo de uma qualquer gaveta. Fosse o que fosse que escrevesse, teria de surgir de dentro dele.
Sabia que virias. Há muito que tínhamos marcado este encontro, tantas vezes adiado, tantas vezes sublimado. A minha resistência, a tua persistência.
Sabia que virias. Emprestaste-me a força que me ajudou a sobreviver e, justificadamente, agora vens reclamá-la. Eu tinha-o lido em livros antigos, em livros modernos, ouvido nas vozes dos que contigo estiveram ou que de longe te observaram.
Sabia que virias. Até percebo que te temam e se afastem de nós, pois tu deixas marcas, mesmo em quem de ti apenas se aproxima, mas isto é algo profundamente íntimo, algo apenas nosso.
Sabia que virias. Aceito-te, como durante meses aceitei a dádiva de simultaneamente conseguir ser dia, noite, pai, companheiro, enfermeiro, carcereiro, criado e finalmente, ninguém.
Uma das coisas que se inveja aos artistas é a sua genialidade ao transformar o curioso, o inesperado, o desconfortável ou o perplexo, em objectos, frases ou momentos de espanto. Pelo menos, ele acreditava fervorosamente nisso e, de uma forma quase autofágica, aproveitava todo e qualquer desaire para tentar escrever um pequeno texto, um conto ou, quem sabe, até um romance. Tantas foram as vezes que partiu em direcção à “página desconhecida”, que um dia se apercebeu de que nada mais tinha para dizer e de que os personagens que criara e a quem dera rosto, dele se tinham simplesmente fartado e definitivamente partido: o José já desistira de trabalhar como caixeiro-viajante e trabalha agora numa firma de contabilidade; a Rute tinha conseguido perdoar ao pai e ao irmão todos os maus-tratos que, durante anos, lhe infligiram; o Luís acabou por enlouquecer sem realmente saber quem era. Afinal não tinha sido apenas abandonado pela Rita, mas sim por todos os que lhe estavam próximos, até mesmo por aqueles que ele inventou. Então, pensou a sério, ainda mais a sério, sobre o que lhe estava a acontecer. Quem teria realmente partido? Quem se afasta primeiro? A partir de onde se começa a medir o afastamento? Começa-se de cá para lá ou de lá para cá? Todas estas questões ainda lhe povoam o espírito, principalmente porque são dúbias, ambíguas, revertíveis. Ele sabia que não há zona mais pantanosa do que o terreno do “eu”, mas tinha de haver uma saída!
Pensando melhor, todas as relações da sua vida tinham tido uma pitada de estranheza, um desfasamento que, por ser latente, se manifestava amiúde e nos momentos mais inesperados. É óbvio que esses momentos foram e ainda são pontos de viragem, de introspecção, momentos tontos e de espanto. A Rita era, sem dúvida, a pessoa que mais se irritava com as suas “ausências”, talvez porque isso, para além de lhe parecer um afastamento imposto, lhe trouxesse uma insegurança da qual não conseguia escapar. Que foi? perguntava ela, sabendo de antemão que a resposta seria: Nada! Nos primeiros meses da sua estadia lá em casa, ainda insistia com ele, fazendo uso da arte de interrogar - apanágio desses seres obtusamente desconcertantes - perguntando sempre o mesmo mas utilizando diferentes vocábulos: Passa-se alguma coisa? Estás bem? Há algum problema? ou ainda Em que estás a pensar? A resposta era invariavelmente a mesma: Nada ou Está tudo bem. Ele não tinha a noção do mal que isso lhe causava, a ela e ao relacionamento entre eles. Tanto que, quando ela se cansou de não perceber se habitava no coração dele, apenas lhe disse Vou-me embora! Ele perguntou-lhe o porquê e ela respondeu Por nada. Ele até quis não compreender a razão que a levava a tomar tal atitude, mas ter a consciência das coisas é como atravessar uma fronteira que imediatamente desaparece. Ele chorou, a um metro da janela, imaginando que para ela Rita lançaria um último olhar. Nunca voltaria a sentir-se tão cobarde, como se sentiu naquele momento.
Durante seis semanas, o Sebastião, que era e ainda é o gato da vizinha da frente, mudou-se lá para casa e até parecia que aquele sempre tinha sido o seu único e amado lar, o que não é muito comum nos gatos, adaptarem-se tão facilmente a um novo espaço! De início, ele até lhe achava alguma graça, principalmente quando se escondia nos sítios mais improváveis que possam imaginar ou quando subitamente desatava a correr da sala para o quarto ou vice-versa, como se fugisse de um fogo ou de um cão, o que é a mesma coisa, porque o medo sempre foi um sentimento tremendamente transversal. Mas algum tempo depois e cansado de ter de servir de pajem ao gato, sempre que queria beber água ou se enfiava atrás da máquina de lavar roupa, sem conseguir sair, o idílio transformou-se num pesadelo que apenas tinha uma única coisa boa: o fim à vista! A vizinha voltou, quis pagar os estragos infligidos ao sofá, oferta que ele pronta e delicadamente recusou, não fosse ela voltar a pedir-lhe para o deixar de novo e apenas por “alguns dias” lá. A sua relação com os animais, quase todos os animais, sempre tinha sido difícil. E até aí... tudo bem. O que lhe custava mesmo era ouvir dizer que “Os animais sentem quem é ou não é boa pessoa” ou ainda, “Eles percebem que tens medo, e pronto!” Já não lhe bastava o estigma de ser arranhado, mordido e humilhado por tudo o que tivesse mais de duas patas, ainda tinha de escutar longos sermões sobre etologia, vulgo "psicologia animal" e outras descobertas maravilhosas, tão bem apregoadas... principalmente por parte dos babados donos dos animalejos! Havia no entanto, um género de animais que, para além de o tranquilizarem imenso, lhe recordavam uma infância feliz e com os quais nunca tinha tido qualquer tipo de desentendimento: os peixes de aquário (convém frisar este pequeno detalhe...) Esse elo que o ligava ao mundo animal era praticamente desconhecido por todos os seus amigos e até pela Rita, com quem viveu durante três agridoces anos. Não lhe agradava admitir esse gosto, aparentemente pouco másculo, com receio de ser gozado, mesmo que se tratasse apenas de uma “brincadeira”. Isso tinha já acontecido, há tantos anos atrás, num momento em que optou por ficar a assistir ao nascimento dos Platys, em vez de ter ido jogar à bola. Desde essa altura e durante alguns meses, passou a ser conhecido como o “Barbatana”. Felizmente, as alcunhas tinham sempre pouca duração e desde “Oculetas” a “Pastilha” ou de “Bifanas” a “Livrinhos”, quase tudo lhe chamaram. Presentemente não tinha nenhuma alcunha, pelo menos que o soubesse.
“Mais uma tarde sem jeito nenhum”, pensou ele e tinha razão para pensar assim. As horas sucediam-se pateticamente, sem sequer darem pela sua existência. Aliás, essa é uma das características das horas, a de ignorarem em absoluto o que à volta delas se passa. O tempo nunca é nosso, apenas nos faz o favor de deixar que a ele ilusoriamente nos colemos, já tinha ele há muito concluído. Ensaiou algumas palavras num papel qualquer, porque essa história de que para escrever um bom texto é necessário ter um sítio certo, uma cadeira confortável ou um papel especial, não o convencia. Apenas lhe saíam as palavras do costume: Hoje, Tempo, Noite, Pensamento. Tudo era tão vago, sem jeito nenhum, como a tarde que passava. Escreveu dez linhas e pensou, Agora, tem de surgir um elemento inesperado na narrativa, algo como “O telefone tocou” ou “Bateram à porta” ou ainda “Sentiu uma dor”. Não, pensando bem, não era isso que ele desejava para o seu texto. Pousou o lápis e abandonou a folha, como quem desiste de fazer força. Naquele momento, iniciou-se o tempo da espera: o texto esperava o autor; o lápis esperava a mão… e a ideia, esperava a palavra certa. Um copo de água. A cozinha era, inevitavelmente, o lugar onde ele poderia saciar aquela repentina sede. Se eu fosse como o Sebastião, pensou, o caminho seria mais curto, bastava ir à casa de banho e miar para a torneira do bidé. Assim, tenho que me comportar como gente, dividir-me entre o sofá e o tapete, quando o que me apetecia era ser gato e procurar moscas e borboletas, afiando as unhas onde bem me apetecesse.
Ainda hoje permanece o mistério que envolveu a sua morte. Era o espião mais bem sucedido do seu tempo. Recebia todas as instruções através de uma caixa postal, que mudava de endereço todas as semanas, segundo uma equação de base logarítmica bastante complexa, memorizada aos 14 anos, momento em que se tornara conhecido pelos seus colegas de escola como “o base de dados”, tal era a sua facilidade em registar mentalmente tudo o que se dizia ou passava dentro e fora da sala de aula. Foi a partir desse momento que iniciou a sua actividade como espião. A sua primeira proposta governamental chegou-lhe dissimulada numa carta de amor, que recebeu em mão, entregue por uma colega de turma que, sem qualquer sombra de dúvida, também era Espia. Rudolfo era cirurgicamente preciso nos apontamentos que tomava e que de seguida os colocava em caixas-importantes, disfarçadas de caixas-não-importantes, guardando-as num local que, com receio de poder vir a ser descoberto, também mudava irregularmente. Sentia-se o guardião dos gestos dos que o rodeavam e dos que se cruzavam com ele e nem mesmo nos raros momentos de fragilidade pré-orgásmica a que submeteu com as poucas namoradas que teve, todas potenciais espias inimigas, claro, deixou transparecer algo que indiciasse a nobre e ultra-secreta missão de que estava incumbido. Nunca chegou a saber para quem trabalhava, conheceu ou se deu a conhecer a outros espiões e muito menos o quanto ganhava. O que se escrevia nos jornais era tudo manipulado. Nunca nenhuma comissão parlamentar teve acesso aos seus dados pessoais. Rudolfo escrevia quase sempre em código, para grande desespero dos professores que teve. Como consequência disso tinha apoio escolar acrescido, aproveitando esse tempo extra, que lhe dedicavam, para tomar notas complementares sobre a actuação dos professores. O destino dado às suas informações era, obviamente, secreto. Sabia no entanto que tudo funcionava bem. A regra número um era, por precaução, não existir qualquer tipo de eco relativo às suas mensagens por parte dos destinatários. Sabe-se que tinha um nome de código e também que fez questão de o esquecer, por questões de segurança, claro.
Quanto à sua morte…teria sido realmente suicídio? homicídio? Vestígios da Guerra-fria? Futurologia da UÇK? De uma coisa podemos ter a certeza: Rudolfo era um espião realmente digno desse nome, chegando a levar ao extremo essa sua nobre missão. Rudolfo espiava-se a si próprio. Escrevia, gravava e, quando era possível, filmava cada passo seu para assim ter provas acrescidas de defesa ou de ataque em causa própria. Isso não era nada fácil, tentar não se autodenunciar, espiar-se sem saber que estava a ser espiado. Para que todo o seu trabalho não perdesse o sentido, ele arranjou uma espécie de duplo, com identidade falsa e morada desconhecida, que o seguia a cada instante. Rudolfo questionava-se. Que escreveria o ‘outro’ sobre ele? Com certeza que trabalharia para o inimigo. Aonde é que estava o inimigo? Pagariam mais ao ‘outro’ do que a ele próprio? Rudolfo sabia que não estava seguro e o ‘outro’ sabia bastante mais do que ele, porque apesar do esforço que fazia nesse sentido, não lhe conseguia escapar. Se calhar foi o ‘outro’ que o matou. Na verdade, ele sentia-se ameaçado já há algum tempo, pelo menos segundo o que constava nos apontamentos que o ‘outro’ tomara sobre ele e aos quais ele, através de um complicadíssimo processo de contra-espionagem, tinha conseguido ter acesso. Até agora pouco mais se sabe. Calcula-se que, algures numa caixa postal, com número de base logarítmica desconhecida e em linguagem criptada, está encerrada a verdade.
Passavam alguns minutos depois das dez e o dia tinha saído há pouco. Deveria ter ficado em casa, até porque estava tudo arrumado de uma forma aleatória, mas não quis. Agosto era o próximo mês, mas o calor tinha atingido já os limites suportáveis, pelos que menos suportam os limites que o calor atinge. Ao menos na rua, embora o calor seja o mesmo que em casa, durante a noite não se sufoca tanto. Andou alguns quarteirões a pé, sem destino e, quando deu por ele, estava em frente a um portão de jardim. Entrou, sentou-se num banco que lhe pareceu convidativo e esperou. Esperou, até que o esperar lhe deu sono e adormeceu, como quem adormece numa banheira. Sem saber quanto tempo tinha passado, acordou. Pestanejou, porque os olhos pesavam-lhe tanto quanto o corpo dorido do calor e julgou sonhar. Mesmo aos seus pés dormia, deitada na relva, uma mulher. Endireitou as costas nas costas do banco e, sem saber que fazer ou se deveria fazer alguma coisa, esperou muitos minutos pelo seu acordar. Não aguentando mais a espera, levantou-se e saiu do jardim, não sem olhar para trás a cada dois passos que dava.
Voltou durante anos, porque voltar é praticamente inevitável, até mesmo ao erro, até que um dia adormeceu na relva e, sem saber, também ele esteve aos pés dela. Quando acordou, viu-a sair do jardim e nessa altura percebeu que também tinha estado no sonho dela.
Embora várias amigas digam que me invejam, já me falta a paciência… é demais… já não tenho 20 anos! Anda sempre à minha volta, quase não respiro. À noite olha-me com olhinhos de carneiro mal morto e enrosca-se em mim no sofá. De Inverno ainda me sabe bem, mas de Verão, valha-me S. Agapito, é de loucos! Se me queixo, amua, revira os olhos mas, passados alguns instantes, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes! Claro que me agrada a sua pele macia e sedosa, encostada a mim, numa osmótica carícia. É bom vê-lo quando adormece, tão entregue, tão indefeso, tão tranquilo, no fundo tão dedicado.
Sim é bom, mas o pior é na cama! Na cama é demais:nem me consigo tapar, encosta-se a mim, enrola-se nos cobertores e ressona. Eu puxo, eu empurro e para conseguir conquistar uns míseros cinco centímetros, fico a transpirar. Se o empurrão é mais forte, emite uns sons esquisitos, mas fica quase sempre no mesmo lugar. Já lhe disse várias vezes: - O quarto tem duas camas, e se continuas assim, eu mudo para a outra cama e ponto final.
Não há pachorra, este gato dá-me cabo do juízo!!!!
*Gasparina - Contista convidada para o Conto à Sexta desta semana.
São rosas, senhor…, disse a vendedeira, ao mesmo tempo que se ia preparando para tirar do regaço uma folha de papel de alumínio destinada ao ‘arranjo’. Não, minha senhora, não esteja a tirar as rosas que eu não quero…, disse, pouco convencido. Mas já viu como são lindas? insistia, E a sua Senhora de certeza que vai gostar!… Cedendo, acabou por levar três lindos botões, que nunca chegariam a abrir, embora naquele dia estivesse convencido que desabrochariam como nenhuns outros antes e isso é adivinhação, saber das coisas antes delas acontecerem. Subiu as Escadinhas do Duque e nem lhe pareceram muitos degraus, de tão distraído que estava com o amarelo das rosas. Chegando ao cimo, percorreu todo o Largo com o olhar e, como calculava, esperou apenas alguns minutos. Ela chegou, deu-lhe um beijo, recebeu as rosas e apenas disse São bonitas!… Com as rosas numa mão e a mão dele noutra, ela desceu até à Brasileira e ele seguiu-a. A esplanada estava cheia, por isso esperaram, já sem as mãos trocadas, encostados à estátua do Poeta Chiado, por aí terem mais privacidade. Sabes, disse ela, Tenho uma coisa para te dizer…, apesar de não lhe conhecer aquele tom de voz, ele sentiu um calafrio. Quando a pausa, entre as palavras que ela ia dizendo, deixou de ser pausa para ser intervalo, ele disse Diz lá!… Descobri que não te amo, disse ela de uma só vez, como se tivesse estudado cada palavra, para não se enganar. Gosto muito de ti, mas… Não acredito!, interrompeu ele, já com os olhos avolumados pela notícia e continuou, numa cadência decrescente, Não acredito que me estejas a dizer isso…, e esperou nela o eco das suas palavras. Com o olhar dela fora de alcance da procura dos olhos dele, ela continuou mesmo sem querer, Eu queria que percebesses, mas já sei que não te consigo explicar… Desculpa… Mas…, continuava ela e ele negava o que ouvia, com lentos gestos de cabeça. Ela quis confortá-lo, mas não encontrou forma de o fazer, até porque não existe forma, numa situação destas. Ele ficou encostado àquela pedra, que minutos antes ainda era pedestal de escultura e não lhe dirigiu mais o olhar. Ela levou as rosas, mas só as suportou até à esquina seguinte, porque elas lhe queimavam as mãos. Ele, minutos depois, encontrou-as no chão, apanhou-as e também se queimou. Ela arrependeu-se e ele não soube.
“Confundem-me certas palavras. As que se extinguem depois de ditas e as que continuamente se renovam, nos significados e nas intenções. Desequilibrada e injusta é esta minha necessidade de todas elas, quando comparada ao seu displicente consentimento em se deixarem usar. Luta desigual é esta. Aliás, luto eu e elas encolhem os gráficos ombros, num magnânimo e maternal gesto. Apagar-se-á esta minha vida, sem que realmente conheça o absoluto significado de uma milésima parte delas, sequer.
Misteriosa é a Existência, na sua essência. Serve-me de consolo a ilusão do conhecimento, quando invadido pela melancolia que me traz a certeza do desconhecimento. Escrevo e reescrevo cada frase, esperando assim encontrar os elos que me faltam.”
Inevitavelmente, a partir de um certo dia, Henrique começou a confrontar-se com os anos que já contava. Tinha chegado àquele momento em que já se é velho para as crianças e em que se ainda é jovem para os mais idosos ou seja, algures entre os 30 e os 60. Henrique sempre fora um solitário, pelo menos perante o olhar curioso dos outros. Os solteiros fazem parte de uma raça que procura quase sempre a companhia dos seus iguais, julgando assim livrarem-se da nem sempre silenciosa exigência dos não-solteiros para abandonarem esse estado de graça e também de desgraça, concluiu ele tantas vezes e concluir não é tão definitivo como à primeira vista pode parecer. Voltando à questão inicial, Henrique começou a atravessar o que vulgarmente se chama de crise existencial, que é algo complicadíssimo para quem a vive e sempre fácil de resolver, para quem está de fora. Claro que isto de crises existenciais não é exclusivo da raça dos solteiros e já houve quem jurasse ao Henrique que as dos não-solteiros são muito piores de atravessar. Não se sabe se ele acreditou ou se quem lhe disse tal também acreditava no que dizia, mas aqui fica o registo, para que conste.
Passou tempo. A tristeza e a solidão são lâminas para engolir e ele sentiu-o profundamente.
Passou mais algum tempo. Algum que, para ele, foi muito. Nada se passou. Agora não se lembra quantos dias ou quantos meses foram, porque nada, em cinco meses, é o mesmo que nada, em cinco dias. Uma crise existencial é como um oceano para atravessar, sem bússula, estrelas ou planetas. Depois da tempestade vem sempre outra coisa qualquer, o que na realdidade não é muito consolador, porque depois dessa coisa qualquer, vem sempre outra tempestade. Apesar disso, Henrique julgou já ter passado todos os seus dias de tormenta. Uma semana depois de qualquer um destes dias passados, conheceu Amália e gostou dela, como se gosta de um rio, quando se gosta de rios. Nos dias seguintes imaginou navegar nela, conhecer-lhe as margens e prometendo a si mesmo que não naufragaria. Amália nunca tinha tido nenhuma crise existencial, talvez por não ter a consciência da sua existência, das crises e da sua própria. Aí residia o seu grande encanto. Abandonava-se ao tempo discretamente, como o rio imaginado por Henrique e maior sintonia não poderia haver entre a entrega de um e o desconhecimento do outro. Não se sabe por quantos meses ou anos navegaram, mas fizeram-no como se os rios não tivessem cais. Ele, durante esse tempo, esqueceu-se dos anos à deriva e ela imaginou sempre que haveria um mar, longe. Já sabiam de cor as marés, os levantes, as borrascas e as acalmias. Descobriram que a proa às vezes pode não ser à frente e que o quotidiano afinal é tão importante.
Ninguém soube desta viagem, nem quando acabou. Ele regressou às sensações habituais e ela continuou sem saber o que eram crises existenciais.
Eram três irmãs, eram três irmãos. Nunca se encontraram porque o destino, caprichoso, embora sabendo o quanto poderiam ser felizes juntos, lhes tornou os caminhos tortos em direitos e os direitos em tortos e não os apresentou entre si. Elas viviam para lá de Barcelos, que é tantos sítios, e eles na Ilha do Corvo, que só pode ser ali. José e Maria eram os nomes dos progenitores de todos, o que não é original mas eles gostavam e é isso que interessa. As Marias foram virgens para o casamento e os Josés não, mas elas não se importaram e eles não se questionaram. As filhas de José e Maria nasceram nos mesmos dias que os filhos de Maria e José e eram louras como o Sol, exceptuando a mais nova que de tão morena, era julgada, por quem costuma julgar estas coisas, filha de outro, embora Maria nunca tivesse conhecido outro homem, em toda a sua vida de fertilidade. Os filhos do Corvo, como era conhecido o José na sua ilha, porque a ilha é de quem lá consegue permanecer, eram morenos como o pai, exceptuando o mais novo que, de tão alva a pele e amarelo o cabelo à nascença, juravam que tal criança nunca vingaria. Todos as tardes as filhas de José e Maria e os filhos de Maria e José se sentavam a olhar o mar, chovesse ou fizesse sol. Eles virados para lá de Barcelos, porque era dali que surgia o sol e elas viradas para a Ilha do Corvo, porque era para ali que o Sol ia. Nenhum deles sabia porque o faziam, mas gostavam de o fazer e, uma vez mais, é só isso que interessa. Um dia, a filha mais nova de Maria para lá de Barcelos adoeceu e o filho mais novo de José também. Ela com uma pneumonia e ele de tristeza, maleitas que só desapareceram quando Nossa Senhora dos Aflitos atendeu os pedidos das Marias, suas devotas, e os curou. A ela proibiram-lhe o "chegar perto do mar", de Inverno, de Primavera e de Outono, não fosse ter uma recaída, porque toda a gente sabe como são as recaídas. Com tal proibição, voltou a adoecer mas desta vez de tristeza. A ele nada lhe proibiram, porque o que é que se pode proibir para evitar uma recaída no mal de tristeza? Que se comportasse de maneira diferente dos irmãos e dos da sua geração já era aceite por todos, mas que insistisse em encontrar, caminhando, uma saída naquela ilha, era difícil de compreender. Para lá de Barcelos, a filha morena de Maria e José também procurava uma saída, isolava-se bastante e, quando podia, fugia sempre em direcção ao mar e confundia-se com as gaivotas junto ao rebentar das ondas. Era a sua brincadeira preferida, correr para a água, só parando quando esta lhe encontrava os pés. Julgavam que o fazia por ser criança, enquanto o foi, mas depois habituaram-se simplesmente ao seu comportamento. O tempo passou, como só ele sabe passar e chegou o dia em que os filhos mais novos de Maria e José e de José e Maria completaram trinta anos. Ninguém sabe porquê mas, naquele ano, a ambos fizeram grandes festas. Todos se divertiram, que é para isso que servem as festas. Todos, menos o filho alvo do Corvo que não gostava de festas, por nem sequer nas suas se sentir convidado. Também por essa razão, a meio da festa, resolveu ir até à Rocha dos Mouros (já poucos sabem porque tem aquela rocha esse nome) e ali descansou da caminhada e do resto. Sempre são mais de cinco quilómetros e a vida também cansa... Depois, num acesso de loucura, disseram os mais velhos, atirou-se ao mar e nunca mais ninguém o viu. A filha morena de Maria e José, que sempre pedia que o seu aniversário, ou fosse o que fosse, se festejasse à beira-mar, para lá de Barcelos, naquele dia deixou que o mar lhe agarrasse primeiro os pés e o resto do corpo logo a seguir. As ondas depois de brincarem com ela não a devolveram, nem ela quis.
Deles nada mais se sabe, excepto que em duas se partiu a Rocha dos Mouros e que raramente se vêem ondas naquela pequena enseada, onde certos pequenos pés brincavam.