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17 setembro 2009

Este Vals...

trio



Pequeño Vals Vienés

En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.

Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.

Federico García Lorca

13 setembro 2009

Valsear

shoe

Valso a compasso
Um-dois-três, um-dois-três,
um-dois-três, um-dois-três.

Depois, começo também a trautear...

Pã...
pã-pã-pã-pã...
pã-pã-pã, pã-pã-pã,
pã-pã-pã...

De contente, distraio-me e troco o passo:
Três-um-dois, dois-um-três,
dois-um-três, um-dois-três, um-dois-três.

Coro até aos pés...
e acaba-se o "pã-pã-pã..."

Julho, 1998(?)

20 agosto 2009

O mundo era enorme e os meus olhos também

















9 meses - Agosto 1964


Quando tinha três anos, desenhei duas aranhas, uma delas com cabeça.
Vivia numa grande casa velha, numa aldeia que tinha um pequeno rio,
com peixes para apanhar.
O mundo era enorme e os meus olhos também.

Sempre gostei de cantar. Aprendi com a minha mãe.
Também foi com ela que aprendi a rir, a gostar de ajudar quem precisa
e a emocionar-me.
O mundo era enorme e os meus olhos também.

Aos sete, lembro-me de perguntar:
"Quantos Anos tens, Mãe?"
Vinte e nove!
"TANTOS?!?"

Depois cantei muito, tive medo de aranhas, ri pelo prazer de rir,
sonhava pelo prazer de sonhar.
Também pensei que era eterno, o mundo continuava enorme
e os meus olhos, muito abertos, queriam descobrir mais
porque existiam outras verdades e eu conseguia reinventar o que aprendia.

Tenho atravessado alguns desertos e encontrado alguns oásis.
Tudo continua grande, o mundo e os meus olhos também, mas agora cabe tudo na minha ou na vossa palma da mão.


17 agosto 2009

Rasto

crossing alcantara

A maior prova de que percebemos o quão pouco somos e de quão curta é a nossa vida, está nesta ansiedade de exteriorizar a nossa própria essência, seja através da reprodução da espécie, seja através da produção de obra intelectual que, acreditamos, temporalmente permanecerá muito para além de nós próprios. Ambas surgem instintivamente, correspondendo a uma compulsividade existencial que, quando não se realiza, se sublima através de processos que acarretam consigo grandes doses de angústia e frustração.

Nós somos apenas o rasto que pela vida vamos deixando.

10 agosto 2009

follow your dreams

is this the real life, is this just fantasy?



Sou um,
sou um milhão.
Sou o mesmo
ou talvez não,
talvez não.

Soltei tantas palavras,
já nem sei nem por onde.
Talvez no jardim,
ao vento
ou debaixo do colchão.
Sou o mesmo
ou talvez não,
talvez não.

Descobri que podia inventar paisagens,
melodias e tantas coisas mais
e que também me podiam magoar o coração
Sou o mesmo
ou talvez não,
talvez não.

Magníficos continuam os meus sonhos
e não os dispenso por nenhuma razão.
Haverá quem possa achar estranho
mas eu quero ser o mesmo
ou talvez não,
talvez não.

04 maio 2009

"Mais uma tarde sem jeito nenhum" - X


self fuzzy image
Seis e vinte e nove da manhã. Acordou um minuto antes do despertador, como já se tornava rotina, tantos são os dias iguais. Cumpria escrupulosamente o horário de trabalho, embora não lhe agradasse ter de fazer aquele tipo de serviço, principalmente porque as pernas já lhe pesavam e lhe rareava a paciência para lidar com alguns dos clientes da tarde, que não sabem quando parar de beber.
Trabalhar das sete e trinta até às onze e trinta da manhã e das cinco da tarde até às nove da noite era um horário que lhe agradava, porque lhe concedia algum tempo para tratar de alguns assuntos, andar pela cidade como se estivesse de férias e também para se encontrar com conhecidos e cruzar com desconhecidos. Considerava-se uma pessoa com sorte, apesar de nem o dinheiro nem os amores lhe serem totalmente favoráveis.
O que se tinha passado ontem, tinha-o deixado mais perturbado do que ele imaginaria. Já há muitos meses que a sua relação com a Luísa tinha acabado, mas ela suplicava-lhe que não a deixasse porque tudo se resolveria. O facto de ela morar a algumas centenas de metros do Tágides, tornava tudo mais complicado. Ele via-a quase todos os dias, porque ela não conseguia evitar por ali passar e olhar e parar, até que tivesse a certeza de por ele ter sido vista.
Ontem, após a vigésima tentativa de terminar a relação entre os dois, ao sair lá de casa e enquanto descia as escadas, ouviu dela um único grito, que simultaneamente era também um lamento e temeu pela loucura dela, que desavergonhadamente se anunciava.

Quando saiu para a rua, mesmo em frente à porta, do outro lado da estrada, estava um tipo a fotografar o prédio. Olhou melhor e pareceu-lhe reconhecer aquele rosto, mas seguiu em frente. Tinha pedido ao patrão que o deixasse chegar um pouco mais tarde, porque tinha alguns problemas pessoais para resolver, mas não queria abusar, porque quem usa e abusa... não usa mais!
Uns dez minutos depois de ter chegado ao Tágides, chegou também o fulano que tinha estado a fotografar o prédio. É isso, pensou, afinal é daqui que o conheço.
Já há muito tempo que aquele cliente frequentava a esplanada e não fora a situação emocionalmente desgastante que acabara de acontecer, tê-lo-ia reconhecido imediatamente. Sentava-se quase sempre à mesma mesa e pedia sempre um café e uma água ou, com menos frequência, apenas um martini. Na maioria das vezes tem como sua única companhia um caderno, no qual escreve frases soltas. Que fará este tipo? Pensava ele, entre os pedidos da mesa 2, da 8 e da 15. “Sai um croissant sem creme e um Ice Tea!!”
Já tinham trocado alguns olhares, mas eram olhares de cumprimento, perfeitamente naturais entre quem frequenta o mesmo local, durante um certo período de tempo.
José era um tipo observador e um homem do caderno também.
Ele sabia que existe uma condição universal que nos remete para um lugar concreto: Nós somos apenas e sempre mais um outro, no mundo dos outros.

(fim)

28 abril 2009

"Mais uma tarde sem jeito nenhum" - IX



Por entre conversas de namorados, discussões futebolísticas e acalorados discursos sobre o mau estado da Nação, lá conseguiu escrever duas páginas que, de tanto anotadas e riscadas, pouco sentido poderiam ter para qualquer outra pessoa que não ele próprio.
O Tempo, na escrita, sempre foi para ele um tema de eleição. Sentia que, escrevesse o que escrevesse, nunca dele se afastaria porque, para as palavras existirem, para que as possamos ouvir ou ler, para que em nós façam surgir qualquer tipo de sentimento, necessitamos permanentemente dele, do Tempo, como incontornável suporte para a vida.
Aliás, a maioria das palavras, escritas ou mesmo ditas, remete-nos para o Tempo e para o Espaço, “Tempo e Espaço”, pensou, “Espaço e Tempo”, “E” e “T”...
Ficou mais algum tempo a pensar no que lhe sugeriam aquelas letras e, como se fosse um jogo, resolveu procurar as palavras que, nas frases soltas que já tinha escrito, o remetiam para essa problemática de “E” e “T”. Chegou num ápice à conclusão de que já esperava: mais de metade das palavras que escrevera estava impregnada de Tempo, prenhe de Tempo, numa espécie de simbiose eterna, recriação permanente.
E reescreveu-as uma a uma, até ficar cansado.
Horas.
Sucediam-se.
Ensaiou.
Saíam.
Passava.
Escreveu.
Pensou.
Tocou.
Consumia.
Pousou.
Abandonou.
Momento.
Iniciou-se.
Espera.

Tudo o colava ao Tempo e o tempo colava-se a ele, como um caprichoso parasita.

Voltou para casa, percorrendo cada metro, horas antes palmilhado. Tinha traçado mentalmente, a esquadro e compasso, todas as rectas, curvas e até hipérboles, que em sentido inverso antes desenhara. No entanto, exceptuando distância relativa, nada conseguiu subtrair, nem tempo, nem sensações, nada. "Na Vida não há subtracções, apenas somas, mesmo que sejam somas de perdas", pensou.
Só quando fechou a porta de casa é que se apercebeu de que tinha feito o percurso sem se ter lembrado de olhar para as indiscretas janelas, penduradas naquela fachada de azul claro. Sentiu-se tremendamente volúvel. Pousou a mochila no chão, tirou de lá o caderno, que colocou na pequena mesa que está perto da janela da sala e dirigiu-se para o quarto, fingindo que estava cansado. Na realidade, o que lhe apetecia mesmo era dormir e gastar tempo e não lhe interessava os conselhos do travesseiro ou o poder reparador do sono, apenas desejava "Não Estar".
Era já recorrente este seu desejo, principalmente em situações de encruzilhada, nos momentos em que as opções se assemelham a rifas com prémios dúbios, que somos obrigados a levar connosco.
Cansaram-se dele as horas e acabou finalmente por adormecer.

don't know when, don't know why.


PX e dois enigmas
"Peixe e dois enigmas", 2000 - Acrílico sobre papel, 100x70cm

27 abril 2009

A Companheira



A Companheira

Composição: Luiz Tatit

eu ia saindo, ela estava ali
no portão da frente
ia até o bar, ela quis ir junto
"tudo bem", eu disse
ela ficou super contente
falava bastante,
o que não faltava era assunto
sempre ao meu lado,
não se afastava um segundo
uma companheira que ia a fundo

onde eu ia, ela ia
onde olhava, ela estava
quando eu ria, ela ria
não falhava

no dia seguinte ela estava ali
no portão da frente
ia trabalhar, ela quis ir junto
avisei que lá o pessoal era muito exigente
ela nem se abalou
"o que eu não souber eu pergunto"
e lançou na hora mais um argumento profundo
que iria comigo até o fim do mundo

me esperava no portão
me encontrava, dava a mão
me chateava, sim ou não?
não

de repente a vida ganhou sentido
companheira assim nunca tinha tido
o que fica sempre é uma coisa estranha
é companheira que não acompanha

isso p'ra mim é felicidade
achar alguém assim na cidade
como uma letra p'ra melodia
fica do lado, faz companhia

pensava nisso quando ela ali
no portão da frente
me viu pensando, quis pensar junto
"pensar é um ato tão particular do indivíduo"
e ela, na hora "particular, é? duvido"
e como de fato eu não tinha lá muita certeza
entrei na dela, senti firmeza

eu pensava até um ponto
ela entrava sem confronto
eu fazia o contraponto
e pronto

pensar assim virou uma arte
uma canção feita em parceria
primeira parte, segunda parte
volta o refrão e acabou a teoria

pensamos muito por toda a tarde
eu começava, ela prosseguia
chegamos mesmo, modesta à parte
a uma pequena filosofia

foi nessa noite que bem ali
no portão da frente
eu fiquei triste, ela ficou junto
e a melancolia foi tomando conta da gente
desintegrados, éramos nada em conjunto
quem nos olhava só via dois vagabundos
andando assim meio moribundos

eu tombava numa esquina
ela caía por cima
um coitado e uma dama
dois na lama

mas durou pouco, foi só uma noite
e felizmente
eu sarei logo, ela sarou junto
e a euforia bateu em cheio na gente
sentíamos ter toda felicidade do mundo
olhava a cidade e achava a coisa mais linda
e ela achava mais linda ainda

eu fazia uma poesia
ela lia, declamava
qualquer coisa que eu escrevia
ela amava

isso também durou só um dia
chegou a noite acabou a alegria
voltou a fria realidade
aquela coisa bem na metade

mas nunca a metade foi tão inteira
uma medida que se supera
metade ela era companheira
outra metade, era eu que era

nunca a metade foi tão inteira
uma medida que se supera
metade ela era companheira
outra metade, era eu que era

(A versão da Zélia Duncan é magnífica, mas não a encontrei disponível para partilha Web)

17 abril 2009

Potente



Mammillaria backebergiana
Mammillaria backebergiana

Dedicado (com todo o respeito) às mammillarias, que agora começam a florir e à minha amada Andaluzia.
(no sé si os gusta el "Cantaor"... pero me da igual! Olé!!)

16 abril 2009

"Mais uma tarde sem jeito nenhum" - V



goodbye

Uma das coisas que se inveja aos artistas é a sua genialidade ao transformar o curioso, o inesperado, o desconfortável ou o perplexo, em objectos, frases ou momentos de espanto. Pelo menos, ele acreditava fervorosamente nisso e, de uma forma quase autofágica, aproveitava todo e qualquer desaire para tentar escrever um pequeno texto, um conto ou, quem sabe, até um romance.
Tantas foram as vezes que partiu em direcção à “página desconhecida”, que um dia se apercebeu de que nada mais tinha para dizer e de que os personagens que criara e a quem dera rosto, dele se tinham simplesmente fartado e definitivamente partido: o José já desistira de trabalhar como caixeiro-viajante e trabalha agora numa firma de contabilidade; a Rute tinha conseguido perdoar ao pai e ao irmão todos os maus-tratos que, durante anos, lhe infligiram; o Luís acabou por enlouquecer sem realmente saber quem era.
Afinal não tinha sido apenas abandonado pela Rita, mas sim por todos os que lhe estavam próximos, até mesmo por aqueles que ele inventou.
Então, pensou a sério, ainda mais a sério, sobre o que lhe estava a acontecer. Quem teria realmente partido? Quem se afasta primeiro? A partir de onde se começa a medir o afastamento? Começa-se de cá para lá ou de lá para cá?
Todas estas questões ainda lhe povoam o espírito, principalmente porque são dúbias, ambíguas, revertíveis. Ele sabia que não há zona mais pantanosa do que o terreno do “eu”, mas tinha de haver uma saída!

14 abril 2009

unconditional lie



sad

(Recitado)

Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese no sé qué, ¿viste?.
Salís de tu casa, por Arenales .
Lo de siempre: en la calle y en vos...
Cuando de repente, de atrás de un árbol, me aparezco yo.
Mezcla rara de penúltimo linyera y de primer polizonte a Venus:
medio melón en la cabeza, las rayas de la camisa pintadas en la piel,
dos medias suelas clavadas en los pies y una banderita de taxi libre
levantada en cada mano. ¡Te reís!...
Pero sólo vos me ves: porque los maniquíes me guiñan;
los semáforos me dan tres luces celestes,
y las naranjas del frutero de la esquina me tiran azahares.
¡Vení!, que así, medio bailando y medio volando,
me saco el melón para saludarte,
te regalo una banderita y te digo...


(Cantado)

Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
No ves que va la luna rodando por Callao
que un corso de astronautas y niños, con un vals,
me baila alrededor... ¡Bailá!... ¡Vení!... ¡Volá!

Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión;
y a vos te vi tan triste... ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!...
el loco berretín que tengo para vos:

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombón
a desvelarte el corazón.

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Como un acróbata demente saltaré,
sobre el abismo de tu escote hasta sentir
que enloquecí tu corazón de libertad...
¡Ya vas a ver!

Recitado

Salgamos a volar, querida mía;
subite a mi ilusión supersport,
y vamos a correr por las cornisas
¡con una golondrina en el motor!
De Vieytes nos aplauden: "¡Viva! ¡Viva!"
los locos que inventaron el Amor:
y un ángel y un soldado y una niña
nos dan un valsecito bailador.

Nos sale a saludar la gente linda...
Y loco –pero tuyo– ¡qué sé yo!:
provoco campanarios con la risa,
y al fin, te miro, y canto a media voz:

(Cantado)

Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Trepatea esta ternura de locos que hay en mí,
ponete esta peluca de alondras ¡y volá!
¡Volá conmigo ya! ¡Vení, volá, vení!

Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Abrite a los amores que vamos a intentar
la mágica locura total de revivir
¡Vení, volá, vení! ¡Trai-lai-la-larará!

(Gritado)

¡Viva! ¡Viva! ¡Viva!
Loca ella y loco yo...
¡Locos! ¡Locos! ¡Locos!
¡Loca ella y loco yo!

13 abril 2009

"Mais uma tarde sem jeito nenhum" - III



window

Pensando melhor, todas as relações da sua vida tinham tido uma pitada de estranheza, um desfasamento que, por ser latente, se manifestava amiúde e nos momentos mais inesperados. É óbvio que esses momentos foram e ainda são pontos de viragem, de introspecção, momentos tontos e de espanto.
A Rita era, sem dúvida, a pessoa que mais se irritava com as suas “ausências”, talvez porque isso, para além de lhe parecer um afastamento imposto, lhe trouxesse uma insegurança da qual não conseguia escapar. Que foi? perguntava ela, sabendo de antemão que a resposta seria: Nada!
Nos primeiros meses da sua estadia lá em casa, ainda insistia com ele, fazendo uso da arte de interrogar - apanágio desses seres obtusamente desconcertantes - perguntando sempre o mesmo mas utilizando diferentes vocábulos: Passa-se alguma coisa? Estás bem? Há algum problema? ou ainda Em que estás a pensar? A resposta era invariavelmente a mesma: Nada ou Está tudo bem.
Ele não tinha a noção do mal que isso lhe causava, a ela e ao relacionamento entre eles. Tanto que, quando ela se cansou de não perceber se habitava no coração dele, apenas lhe disse Vou-me embora! Ele perguntou-lhe o porquê e ela respondeu Por nada. Ele até quis não compreender a razão que a levava a tomar tal atitude, mas ter a consciência das coisas é como atravessar uma fronteira que imediatamente desaparece.
Ele chorou, a um metro da janela, imaginando que para ela Rita lançaria um último olhar. Nunca voltaria a sentir-se tão cobarde, como se sentiu naquele momento.

12 abril 2009

Life's too short, so please love and be happy








(Esta versão também é muito interessante!...)

I heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this, the fourth, the fifth, the minor fall, the major lift, the baffled king composing Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

Your faith was strong but you needed proof, you saw her bathing on the roof, her beauty in the moonlight overthrew you
She tied you to a kitchen chair, she broke your throne, she cut your hair, and from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

Maybe I have been here before, I know this room; I have walked this floor, I used to live alone before I knew you
I've seen your flag on the marble arch, love is not a victory march, it's a cold and its a broken Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

There was a time you let me know whats really going on below, but now you never show it to me, do you? (and)
Remember when I moved in you; the holy dark was moving too, and every breath we drew was Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

Maybe there's a God above, and all I ever learned from love was how to shoot at someone who outdrew you
And its not a cry you can hear at night, its not somebody who's seen the light, its a cold and its a broken Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu--jah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu---u---jah

"Mais uma tarde sem jeito nenhum" - II


Durante seis semanas, o Sebastião, que era e ainda é o gato da vizinha da frente, mudou-se lá para casa e até parecia que aquele sempre tinha sido o seu único e amado lar, o que não é muito comum nos gatos, adaptarem-se tão facilmente a um novo espaço! De início, ele até lhe achava alguma graça, principalmente quando se escondia nos sítios mais improváveis que possam imaginar ou quando subitamente desatava a correr da sala para o quarto ou vice-versa, como se fugisse de um fogo ou de um cão, o que é a mesma coisa, porque o medo sempre foi um sentimento tremendamente transversal. Mas algum tempo depois e cansado de ter de servir de pajem ao gato, sempre que queria beber água ou se enfiava atrás da máquina de lavar roupa, sem conseguir sair, o idílio transformou-se num pesadelo que apenas tinha uma única coisa boa: o fim à vista! A vizinha voltou, quis pagar os estragos infligidos ao sofá, oferta que ele pronta e delicadamente recusou, não fosse ela voltar a pedir-lhe para o deixar de novo e apenas por “alguns dias” lá.
A sua relação com os animais, quase todos os animais, sempre tinha sido difícil. E até aí... tudo bem. O que lhe custava mesmo era ouvir dizer que “Os animais sentem quem é ou não é boa pessoa” ou ainda, “Eles percebem que tens medo, e pronto!” Já não lhe bastava o estigma de ser arranhado, mordido e humilhado por tudo o que tivesse mais de duas patas, ainda tinha de escutar longos sermões sobre etologia, vulgo "psicologia animal" e outras descobertas maravilhosas, tão bem apregoadas... principalmente por parte dos babados donos dos animalejos!
Havia no entanto, um género de animais que, para além de o tranquilizarem imenso, lhe recordavam uma infância feliz e com os quais nunca tinha tido qualquer tipo de desentendimento: os peixes de aquário (convém frisar este pequeno detalhe...)
Esse elo que o ligava ao mundo animal era praticamente desconhecido por todos os seus amigos e até pela Rita, com quem viveu durante três agridoces anos. Não lhe agradava admitir esse gosto, aparentemente pouco másculo, com receio de ser gozado, mesmo que se tratasse apenas de uma “brincadeira”. Isso tinha já acontecido, há tantos anos atrás, num momento em que optou por ficar a assistir ao nascimento dos Platys, em vez de ter ido jogar à bola. Desde essa altura e durante alguns meses, passou a ser conhecido como o “Barbatana”. Felizmente, as alcunhas tinham sempre pouca duração e desde “Oculetas” a “Pastilha” ou de “Bifanas” a “Livrinhos”, quase tudo lhe chamaram.
Presentemente não tinha nenhuma alcunha, pelo menos que o soubesse.

09 abril 2009

“Mais uma tarde sem jeito nenhum” - I



















“Mais uma tarde sem jeito nenhum”, pensou ele e tinha razão para pensar assim. As horas sucediam-se pateticamente, sem sequer darem pela sua existência. Aliás, essa é uma das características das horas, a de ignorarem em absoluto o que à volta delas se passa. O tempo nunca é nosso, apenas nos faz o favor de deixar que a ele ilusoriamente nos colemos, já tinha ele há muito concluído.
Ensaiou algumas palavras num papel qualquer, porque essa história de que para escrever um bom texto é necessário ter um sítio certo, uma cadeira confortável ou um papel especial, não o convencia. Apenas lhe saíam as palavras do costume: Hoje, Tempo, Noite, Pensamento. Tudo era tão vago, sem jeito nenhum, como a tarde que passava.
Escreveu dez linhas e pensou, Agora, tem de surgir um elemento inesperado na narrativa, algo como “O telefone tocou” ou “Bateram à porta” ou ainda “Sentiu uma dor”. Não, pensando bem, não era isso que ele desejava para o seu texto. Pousou o lápis e abandonou a folha, como quem desiste de fazer força. Naquele momento, iniciou-se o tempo da espera: o texto esperava o autor; o lápis esperava a mão… e a ideia, esperava a palavra certa.
Um copo de água.
A cozinha era, inevitavelmente, o lugar onde ele poderia saciar aquela repentina sede. Se eu fosse como o Sebastião, pensou, o caminho seria mais curto, bastava ir à casa de banho e miar para a torneira do bidé. Assim, tenho que me comportar como gente, dividir-me entre o sofá e o tapete, quando o que me apetecia era ser gato e procurar moscas e borboletas, afiando as unhas onde bem me apetecesse.

(cont...)