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11 janeiro 2010

P1 (julho97)

sombra El Teide

Respiro fundo antes da emoção e fico atordoado.
Olho para trás, reparando que nem sempre a minha sombra me segue.

Espero que não me façam perguntas difíceis.

O Céu às vezes é azul,
às vezes não.

Tum, tum, tum.
Pam, pam, pam.

Vou-me já embora!


de "Recados e outros Poemas"
Lisboa, Julho, 1997(?)

13 setembro 2009

Valsear

shoe

Valso a compasso
Um-dois-três, um-dois-três,
um-dois-três, um-dois-três.

Depois, começo também a trautear...

Pã...
pã-pã-pã-pã...
pã-pã-pã, pã-pã-pã,
pã-pã-pã...

De contente, distraio-me e troco o passo:
Três-um-dois, dois-um-três,
dois-um-três, um-dois-três, um-dois-três.

Coro até aos pés...
e acaba-se o "pã-pã-pã..."

Julho, 1998(?)

20 agosto 2009

O mundo era enorme e os meus olhos também

















9 meses - Agosto 1964


Quando tinha três anos, desenhei duas aranhas, uma delas com cabeça.
Vivia numa grande casa velha, numa aldeia que tinha um pequeno rio,
com peixes para apanhar.
O mundo era enorme e os meus olhos também.

Sempre gostei de cantar. Aprendi com a minha mãe.
Também foi com ela que aprendi a rir, a gostar de ajudar quem precisa
e a emocionar-me.
O mundo era enorme e os meus olhos também.

Aos sete, lembro-me de perguntar:
"Quantos Anos tens, Mãe?"
Vinte e nove!
"TANTOS?!?"

Depois cantei muito, tive medo de aranhas, ri pelo prazer de rir,
sonhava pelo prazer de sonhar.
Também pensei que era eterno, o mundo continuava enorme
e os meus olhos, muito abertos, queriam descobrir mais
porque existiam outras verdades e eu conseguia reinventar o que aprendia.

Tenho atravessado alguns desertos e encontrado alguns oásis.
Tudo continua grande, o mundo e os meus olhos também, mas agora cabe tudo na minha ou na vossa palma da mão.


10 agosto 2009

follow your dreams

is this the real life, is this just fantasy?



Sou um,
sou um milhão.
Sou o mesmo
ou talvez não,
talvez não.

Soltei tantas palavras,
já nem sei nem por onde.
Talvez no jardim,
ao vento
ou debaixo do colchão.
Sou o mesmo
ou talvez não,
talvez não.

Descobri que podia inventar paisagens,
melodias e tantas coisas mais
e que também me podiam magoar o coração
Sou o mesmo
ou talvez não,
talvez não.

Magníficos continuam os meus sonhos
e não os dispenso por nenhuma razão.
Haverá quem possa achar estranho
mas eu quero ser o mesmo
ou talvez não,
talvez não.

18 abril 2009

Sabia que virias



fóssil

Sabia que virias.
Há muito que tínhamos marcado este encontro,
tantas vezes adiado, tantas vezes sublimado.
A minha resistência, a tua persistência.

Sabia que virias.
Emprestaste-me a força que me ajudou a sobreviver
e, justificadamente, agora vens reclamá-la.
Eu tinha-o lido em livros antigos, em livros modernos,
ouvido nas vozes dos que contigo estiveram
ou que de longe te observaram.

Sabia que virias.
Até percebo que te temam e se afastem de nós,
pois tu deixas marcas, mesmo em quem de ti apenas se aproxima,
mas isto é algo profundamente íntimo, algo apenas nosso.

Sabia que virias.
Aceito-te, como durante meses aceitei a dádiva
de simultaneamente conseguir ser dia, noite, pai, companheiro,
enfermeiro, carcereiro, criado e finalmente, ninguém.

09 fevereiro 2009

Gravata de estimação


ez look

Pões-me à volta do teu pescoço,
mais para um lado que para o outro.

Passas-me por cima,
depois por baixo,
depois novamente por cima
e... ainda não está bem.

Seguras-me e rodas sobre mim,
deixas que minuciosamente te reveja o pescoço
e o acaricie uma vez mais.

Sorris de prazer e eu tento manter-me aprumada.
Ajeitas-me de uma forma tão suave e finalmente dás-me o nó.

Depois apertas-me,
ajustando-me a ti.

(já sei que sou a tua gravata de estimação...)


Julho 2000

29 janeiro 2009

Todas as minhas ruas têm o teu nome*



Todas as minhas ruas têm o teu nome.
E é por isso que estou perdido.

Os únicos números que encontro são os dos dias
que estão nos umbrais das portas, que abres e fechas de seguida.
Ilusoriamente perpetuo-me, rabiscando as paredes, que em ti são de cal.
E, cheio de sentimentos nobres e indigentes, corro tanto.

Um, dois, oito, doze, dezoito, vinte e três, trinta, quatro, seis, sete, nove.
Já aqui estive.

Só mais uma vez...


*1997?