Quando tinha três anos, desenhei duas aranhas, uma delas com cabeça.
Vivia numa grande casa velha, numa aldeia que tinha um pequeno rio,
com peixes para apanhar.
O mundo era enorme e os meus olhos também.
Sempre gostei de cantar. Aprendi com a minha mãe.
Também foi com ela que aprendi a rir, a gostar de ajudar quem precisa
e a emocionar-me.
O mundo era enorme e os meus olhos também.
Aos sete, lembro-me de perguntar:
"Quantos Anos tens, Mãe?"
Vinte e nove!
"TANTOS?!?"
Depois cantei muito, tive medo de aranhas, ri pelo prazer de rir,
sonhava pelo prazer de sonhar.
Também pensei que era eterno, o mundo continuava enorme
e os meus olhos, muito abertos, queriam descobrir mais
porque existiam outras verdades e eu conseguia reinventar o que aprendia.
Tenho atravessado alguns desertos e encontrado alguns oásis.
Tudo continua grande, o mundo e os meus olhos também, mas agora cabe tudo na minha ou na vossa palma da mão.
Sou um, sou um milhão. Sou o mesmo ou talvez não, talvez não.
Soltei tantas palavras, já nem sei nem por onde. Talvez no jardim, ao vento ou debaixo do colchão. Sou o mesmo ou talvez não, talvez não.
Descobri que podia inventar paisagens, melodias e tantas coisas mais e que também me podiam magoar o coração Sou o mesmo ou talvez não, talvez não.
Magníficos continuam os meus sonhos e não os dispenso por nenhuma razão. Haverá quem possa achar estranho mas eu quero ser o mesmo ou talvez não, talvez não.
Sabia que virias. Há muito que tínhamos marcado este encontro, tantas vezes adiado, tantas vezes sublimado. A minha resistência, a tua persistência.
Sabia que virias. Emprestaste-me a força que me ajudou a sobreviver e, justificadamente, agora vens reclamá-la. Eu tinha-o lido em livros antigos, em livros modernos, ouvido nas vozes dos que contigo estiveram ou que de longe te observaram.
Sabia que virias. Até percebo que te temam e se afastem de nós, pois tu deixas marcas, mesmo em quem de ti apenas se aproxima, mas isto é algo profundamente íntimo, algo apenas nosso.
Sabia que virias. Aceito-te, como durante meses aceitei a dádiva de simultaneamente conseguir ser dia, noite, pai, companheiro, enfermeiro, carcereiro, criado e finalmente, ninguém.
Todas as minhas ruas têm o teu nome. E é por isso que estou perdido.
Os únicos números que encontro são os dos dias que estão nos umbrais das portas, que abres e fechas de seguida. Ilusoriamente perpetuo-me, rabiscando as paredes, que em ti são de cal. E, cheio de sentimentos nobres e indigentes, corro tanto.
Um, dois, oito, doze, dezoito, vinte e três, trinta, quatro, seis, sete, nove. Já aqui estive.