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11 janeiro 2010

P1 (julho97)

sombra El Teide

Respiro fundo antes da emoção e fico atordoado.
Olho para trás, reparando que nem sempre a minha sombra me segue.

Espero que não me façam perguntas difíceis.

O Céu às vezes é azul,
às vezes não.

Tum, tum, tum.
Pam, pam, pam.

Vou-me já embora!


de "Recados e outros Poemas"
Lisboa, Julho, 1997(?)

16 fevereiro 2009

Correspondência

nolose
"No lo sé" - Técnica mista s/ papel - A3, 1996

“Confundem-me certas palavras. As que se extinguem depois de ditas e as que continuamente se renovam, nos significados e nas intenções. Desequilibrada e injusta é esta minha necessidade de todas elas, quando comparada ao seu displicente consentimento em se deixarem usar. Luta desigual é esta. Aliás, luto eu e elas encolhem os gráficos ombros, num magnânimo e maternal gesto. Apagar-se-á esta minha vida, sem que realmente conheça o absoluto significado de uma milésima parte delas, sequer.

Misteriosa é a Existência, na sua essência. Serve-me de consolo a ilusão do conhecimento, quando invadido pela melancolia que me traz a certeza do desconhecimento. Escrevo e reescrevo cada frase, esperando assim encontrar os elos que me faltam.”

28 de Julho de 2000

13 fevereiro 2009

Solteiro


sky belem

Inevitavelmente, a partir de um certo dia, Henrique começou a confrontar-se com os anos que já contava. Tinha chegado àquele momento em que já se é velho para as crianças e em que se ainda é jovem para os mais idosos ou seja, algures entre os 30 e os 60. Henrique sempre fora um solitário, pelo menos perante o olhar curioso dos outros.
Os solteiros fazem parte de uma raça que procura quase sempre a companhia dos seus iguais, julgando assim livrarem-se da nem sempre silenciosa exigência dos não-solteiros para abandonarem esse estado de graça e também de desgraça, concluiu ele tantas vezes e concluir não é tão definitivo como à primeira vista pode parecer.
Voltando à questão inicial, Henrique começou a atravessar o que vulgarmente se chama de crise existencial, que é algo complicadíssimo para quem a vive e sempre fácil de resolver, para quem está de fora. Claro que isto de crises existenciais não é exclusivo da raça dos solteiros e já houve quem jurasse ao Henrique que as dos não-solteiros são muito piores de atravessar. Não se sabe se ele acreditou ou se quem lhe disse tal também acreditava no que dizia, mas aqui fica o registo, para que conste.

Passou tempo.
A tristeza e a solidão são lâminas para engolir e ele sentiu-o profundamente.

Passou mais algum tempo. Algum que, para ele, foi muito.
Nada se passou.
Agora não se lembra quantos dias ou quantos meses foram, porque nada, em cinco meses, é o mesmo que nada, em cinco dias. Uma crise existencial é como um oceano para atravessar, sem bússula, estrelas ou planetas.
Depois da tempestade vem sempre outra coisa qualquer, o que na realdidade não é muito consolador, porque depois dessa coisa qualquer, vem sempre outra tempestade. Apesar disso, Henrique julgou já ter passado todos os seus dias de tormenta.
Uma semana depois de qualquer um destes dias passados, conheceu Amália e gostou dela, como se gosta de um rio, quando se gosta de rios. Nos dias seguintes imaginou navegar nela, conhecer-lhe as margens e prometendo a si mesmo que não naufragaria.
Amália nunca tinha tido nenhuma crise existencial, talvez por não ter a consciência da sua existência, das crises e da sua própria. Aí residia o seu grande encanto. Abandonava-se ao tempo discretamente, como o rio imaginado por Henrique e maior sintonia não poderia haver entre a entrega de um e o desconhecimento do outro.
Não se sabe por quantos meses ou anos navegaram, mas fizeram-no como se os rios não tivessem cais. Ele, durante esse tempo, esqueceu-se dos anos à deriva e ela imaginou sempre que haveria um mar, longe.
Já sabiam de cor as marés, os levantes, as borrascas e as acalmias. Descobriram que a proa às vezes pode não ser à frente e que o quotidiano afinal é tão importante.

Ninguém soube desta viagem, nem quando acabou.
Ele regressou às sensações habituais e ela continuou sem saber o que eram crises existenciais.

Julho 1994

09 fevereiro 2009

Gravata de estimação


ez look

Pões-me à volta do teu pescoço,
mais para um lado que para o outro.

Passas-me por cima,
depois por baixo,
depois novamente por cima
e... ainda não está bem.

Seguras-me e rodas sobre mim,
deixas que minuciosamente te reveja o pescoço
e o acaricie uma vez mais.

Sorris de prazer e eu tento manter-me aprumada.
Ajeitas-me de uma forma tão suave e finalmente dás-me o nó.

Depois apertas-me,
ajustando-me a ti.

(já sei que sou a tua gravata de estimação...)


Julho 2000

05 fevereiro 2009

O Corvo e o Sol


horizonte

Eram três irmãs, eram três irmãos. Nunca se encontraram porque o destino, caprichoso, embora sabendo o quanto poderiam ser felizes juntos, lhes tornou os caminhos tortos em direitos e os direitos em tortos e não os apresentou entre si. Elas viviam para lá de Barcelos, que é tantos sítios, e eles na Ilha do Corvo, que só pode ser ali.
José e Maria eram os nomes dos progenitores de todos, o que não é original mas eles gostavam e é isso que interessa. As Marias foram virgens para o casamento e os Josés não, mas elas não se importaram e eles não se questionaram. As filhas de José e Maria nasceram nos mesmos dias que os filhos de Maria e José e eram louras como o Sol, exceptuando a mais nova que de tão morena, era julgada, por quem costuma julgar estas coisas, filha de outro, embora Maria nunca tivesse conhecido outro homem, em toda a sua vida de fertilidade. Os filhos do Corvo, como era conhecido o José na sua ilha, porque a ilha é de quem lá consegue permanecer, eram morenos como o pai, exceptuando o mais novo que, de tão alva a pele e amarelo o cabelo à nascença, juravam que tal criança nunca vingaria.
Todos as tardes as filhas de José e Maria e os filhos de Maria e José se sentavam a olhar o mar, chovesse ou fizesse sol. Eles virados para lá de Barcelos, porque era dali que surgia o sol e elas viradas para a Ilha do Corvo, porque era para ali que o Sol ia. Nenhum deles sabia porque o faziam, mas gostavam de o fazer e, uma vez mais, é só isso que interessa.
Um dia, a filha mais nova de Maria para lá de Barcelos adoeceu e o filho mais novo de José também. Ela com uma pneumonia e ele de tristeza, maleitas que só desapareceram quando Nossa Senhora dos Aflitos atendeu os pedidos das Marias, suas devotas, e os curou. A ela proibiram-lhe o "chegar perto do mar", de Inverno, de Primavera e de Outono, não fosse ter uma recaída, porque toda a gente sabe como são as recaídas. Com tal proibição, voltou a adoecer mas desta vez de tristeza. A ele nada lhe proibiram, porque o que é que se pode proibir para evitar uma recaída no mal de tristeza? Que se comportasse de maneira diferente dos irmãos e dos da sua geração já era aceite por todos, mas que insistisse em encontrar, caminhando, uma saída naquela ilha, era difícil de compreender.
Para lá de Barcelos, a filha morena de Maria e José também procurava uma saída, isolava-se bastante e, quando podia, fugia sempre em direcção ao mar e confundia-se com as gaivotas junto ao rebentar das ondas. Era a sua brincadeira preferida, correr para a água, só parando quando esta lhe encontrava os pés. Julgavam que o fazia por ser criança, enquanto o foi, mas depois habituaram-se simplesmente ao seu comportamento.
O tempo passou, como só ele sabe passar e chegou o dia em que os filhos mais novos de Maria e José e de José e Maria completaram trinta anos. Ninguém sabe porquê mas, naquele ano, a ambos fizeram grandes festas. Todos se divertiram, que é para isso que servem as festas. Todos, menos o filho alvo do Corvo que não gostava de festas, por nem sequer nas suas se sentir convidado. Também por essa razão, a meio da festa, resolveu ir até à Rocha dos Mouros (já poucos sabem porque tem aquela rocha esse nome) e ali descansou da caminhada e do resto. Sempre são mais de cinco quilómetros e a vida também cansa... Depois, num acesso de loucura, disseram os mais velhos, atirou-se ao mar e nunca mais ninguém o viu.
A filha morena de Maria e José, que sempre pedia que o seu aniversário, ou fosse o que fosse, se festejasse à beira-mar, para lá de Barcelos, naquele dia deixou que o mar lhe agarrasse primeiro os pés e o resto do corpo logo a seguir. As ondas depois de brincarem com ela não a devolveram, nem ela quis.

Deles nada mais se sabe, excepto que em duas se partiu a Rocha dos Mouros e que raramente se vêem ondas naquela pequena enseada, onde certos pequenos pés brincavam.


2000

30 janeiro 2009

Encontro

Summer 2004



Entre Cortumes e Alviste não existia riso mais sonoro e ao mesmo tempo mais contagiante que o de Manuela. Entre Alviste e Pontadas não havia choro mais angustiante e piedoso que o de Raúl. Quando um dia uma prima comum se casou, convidou-os a ambos para a boda e aí se conheceram. Ela riu-se e ele fez beicinho. Durante a cerimónia de casamento, Manuela, que achava graça a tudo o que o padre dizia, só com as contínuas cotoveladas da sua mãe, tia de sua prima, se controlava. Quando os noivos disseram o Sim, ela deu uma gargalhada e todos os convidados serviram de coro ao seu riso solo. Todos, menos Raúl que, talvez espantado com tudo aquilo e apesar de ter fungado o tempo todo, naquele momento se calou.
Quando a cerimónia acabou, Manuela foi a primeira a sair da igreja e da sua mala de mão tirou um saco de arroz, que parecia maior do que a própria mala. A todo o custo, queria ser a primeira a desejar riqueza aos noivos e tudo o mais que se pode desejar, quando a alguém se atira punhados de arroz. Claro que o entusiasmo fez com que, mesmo antes de eles cá estarem fora, ela começasse a despejar o saco e, tendo a certeza que sua prima e o seu novo primo eram os próximos, encheu generosamente a sua grande mão e… tomem lá primos! Mas era Raúl quem vinha a sair, para fugir à confusão.
Até hoje ninguém consegue perceber como conseguiu ela encher-lhe a boca de tanto arroz. Se pela sua acidental pontaria, se pela boca aberta dele, ao soluçar.
Manuela, quando deu pelo sucedido, riu-se mais ainda e Raúl, de surpresa, calou-se e nem cuspiu o arroz, o que a fez dobrar o indobrável riso, provocando uma saída mais apressada da igreja de todos os convidados, que querendo descobrir o que se passava, empurram Raúl da porta da igreja e que, só nesse momento, se livrou do malfadado arroz.
Quase ninguém percebeu o que se tinha passado. Manuela, embora quisesse, não o conseguiu explicar, porque ria cada vez mais ao lembrar-se do ar de Raúl, que parecia um daqueles ratos que ela uma vez viu numa loja da cidade e que ficam com as bochechas cheias de comida, a olhar para quem olha para eles.
O casamento e a boda, para conveniência dos convidados que eram metade de Cortumes e metade de Pontadas e para além disso viriam a pé a maior parte do caminho, teve lugar em Alviste. Durou um dia só, porque não havia como instalar os convidados e as famílias também não eram suficientemente abastadas para que assim não fosse.
O almoço começou quando já todos tinham vontade de jantar. O Estio governava o céu, o que lhes permitiu ficar até mais tarde e poderem chegar sãos e salvos a casa, livres dos ataques dos lobos que por aqueles montes ainda existiam. Raúl, apesar do que se possa pensar, era destemido e não tinha medo de lobos. Quando já a maior parte dos convidados tinha saído, Raúl ofereceu-se para levar Manuela a casa e ela aceitou, mas não sem antes, com os seus grandes olhos brilhantes, ter pedido consentimento aos mais velhos que ali estavam presentes, levantando-se e saindo somente quando o Raúl disse É tarde.
Estava amena a noite e presente a Lua que, embora partida, iluminava bem todos os mais carreiros, que caminhos. Manuela, que tudo queria ver na terra e no céu, tropeçou numa pedra e caiu, torcendo um pé. A partir daí, só ajudada pelo Raúl conseguiu andar e meia de caminho, que faltava ainda, chegou para que, nos braços dele, ela sentisse ternura e protecção. Então, sem dizer uma palavra, deu-lhe um beijo e ele gostou tanto, que sorriu. Nem a Lua brilhava tanto quanto o seu sorriso. Ao ver isso, Manuela comoveu-se e chorou, chorou o sorriso dele.
Agora entre Cortumes e Pontadas não existe maior felicidade que a de ambos.


Julho, 1994

29 janeiro 2009

Todas as minhas ruas têm o teu nome*



Todas as minhas ruas têm o teu nome.
E é por isso que estou perdido.

Os únicos números que encontro são os dos dias
que estão nos umbrais das portas, que abres e fechas de seguida.
Ilusoriamente perpetuo-me, rabiscando as paredes, que em ti são de cal.
E, cheio de sentimentos nobres e indigentes, corro tanto.

Um, dois, oito, doze, dezoito, vinte e três, trinta, quatro, seis, sete, nove.
Já aqui estive.

Só mais uma vez...


*1997?