28 abril 2009

"Mais uma tarde sem jeito nenhum" - IX



Por entre conversas de namorados, discussões futebolísticas e acalorados discursos sobre o mau estado da Nação, lá conseguiu escrever duas páginas que, de tanto anotadas e riscadas, pouco sentido poderiam ter para qualquer outra pessoa que não ele próprio.
O Tempo, na escrita, sempre foi para ele um tema de eleição. Sentia que, escrevesse o que escrevesse, nunca dele se afastaria porque, para as palavras existirem, para que as possamos ouvir ou ler, para que em nós façam surgir qualquer tipo de sentimento, necessitamos permanentemente dele, do Tempo, como incontornável suporte para a vida.
Aliás, a maioria das palavras, escritas ou mesmo ditas, remete-nos para o Tempo e para o Espaço, “Tempo e Espaço”, pensou, “Espaço e Tempo”, “E” e “T”...
Ficou mais algum tempo a pensar no que lhe sugeriam aquelas letras e, como se fosse um jogo, resolveu procurar as palavras que, nas frases soltas que já tinha escrito, o remetiam para essa problemática de “E” e “T”. Chegou num ápice à conclusão de que já esperava: mais de metade das palavras que escrevera estava impregnada de Tempo, prenhe de Tempo, numa espécie de simbiose eterna, recriação permanente.
E reescreveu-as uma a uma, até ficar cansado.
Horas.
Sucediam-se.
Ensaiou.
Saíam.
Passava.
Escreveu.
Pensou.
Tocou.
Consumia.
Pousou.
Abandonou.
Momento.
Iniciou-se.
Espera.

Tudo o colava ao Tempo e o tempo colava-se a ele, como um caprichoso parasita.

Voltou para casa, percorrendo cada metro, horas antes palmilhado. Tinha traçado mentalmente, a esquadro e compasso, todas as rectas, curvas e até hipérboles, que em sentido inverso antes desenhara. No entanto, exceptuando distância relativa, nada conseguiu subtrair, nem tempo, nem sensações, nada. "Na Vida não há subtracções, apenas somas, mesmo que sejam somas de perdas", pensou.
Só quando fechou a porta de casa é que se apercebeu de que tinha feito o percurso sem se ter lembrado de olhar para as indiscretas janelas, penduradas naquela fachada de azul claro. Sentiu-se tremendamente volúvel. Pousou a mochila no chão, tirou de lá o caderno, que colocou na pequena mesa que está perto da janela da sala e dirigiu-se para o quarto, fingindo que estava cansado. Na realidade, o que lhe apetecia mesmo era dormir e gastar tempo e não lhe interessava os conselhos do travesseiro ou o poder reparador do sono, apenas desejava "Não Estar".
Era já recorrente este seu desejo, principalmente em situações de encruzilhada, nos momentos em que as opções se assemelham a rifas com prémios dúbios, que somos obrigados a levar connosco.
Cansaram-se dele as horas e acabou finalmente por adormecer.

don't know when, don't know why.


PX e dois enigmas
"Peixe e dois enigmas", 2000 - Acrílico sobre papel, 100x70cm

27 abril 2009

A Companheira



A Companheira

Composição: Luiz Tatit

eu ia saindo, ela estava ali
no portão da frente
ia até o bar, ela quis ir junto
"tudo bem", eu disse
ela ficou super contente
falava bastante,
o que não faltava era assunto
sempre ao meu lado,
não se afastava um segundo
uma companheira que ia a fundo

onde eu ia, ela ia
onde olhava, ela estava
quando eu ria, ela ria
não falhava

no dia seguinte ela estava ali
no portão da frente
ia trabalhar, ela quis ir junto
avisei que lá o pessoal era muito exigente
ela nem se abalou
"o que eu não souber eu pergunto"
e lançou na hora mais um argumento profundo
que iria comigo até o fim do mundo

me esperava no portão
me encontrava, dava a mão
me chateava, sim ou não?
não

de repente a vida ganhou sentido
companheira assim nunca tinha tido
o que fica sempre é uma coisa estranha
é companheira que não acompanha

isso p'ra mim é felicidade
achar alguém assim na cidade
como uma letra p'ra melodia
fica do lado, faz companhia

pensava nisso quando ela ali
no portão da frente
me viu pensando, quis pensar junto
"pensar é um ato tão particular do indivíduo"
e ela, na hora "particular, é? duvido"
e como de fato eu não tinha lá muita certeza
entrei na dela, senti firmeza

eu pensava até um ponto
ela entrava sem confronto
eu fazia o contraponto
e pronto

pensar assim virou uma arte
uma canção feita em parceria
primeira parte, segunda parte
volta o refrão e acabou a teoria

pensamos muito por toda a tarde
eu começava, ela prosseguia
chegamos mesmo, modesta à parte
a uma pequena filosofia

foi nessa noite que bem ali
no portão da frente
eu fiquei triste, ela ficou junto
e a melancolia foi tomando conta da gente
desintegrados, éramos nada em conjunto
quem nos olhava só via dois vagabundos
andando assim meio moribundos

eu tombava numa esquina
ela caía por cima
um coitado e uma dama
dois na lama

mas durou pouco, foi só uma noite
e felizmente
eu sarei logo, ela sarou junto
e a euforia bateu em cheio na gente
sentíamos ter toda felicidade do mundo
olhava a cidade e achava a coisa mais linda
e ela achava mais linda ainda

eu fazia uma poesia
ela lia, declamava
qualquer coisa que eu escrevia
ela amava

isso também durou só um dia
chegou a noite acabou a alegria
voltou a fria realidade
aquela coisa bem na metade

mas nunca a metade foi tão inteira
uma medida que se supera
metade ela era companheira
outra metade, era eu que era

nunca a metade foi tão inteira
uma medida que se supera
metade ela era companheira
outra metade, era eu que era

(A versão da Zélia Duncan é magnífica, mas não a encontrei disponível para partilha Web)

24 abril 2009

"Mais uma tarde sem jeito nenhum" - VIII



Sentou-se na cadeira da esplanada, local que lhe agradava sobremaneira por poder optar entre estar sozinho ou observar com alguma tranquilidade quem por lá passava. Ter virado à direita quando saiu de casa ou ter caminhado cerca de trinta minutos até àquele “porto de abrigo”, não tinha passado de um gesto que o hábito cristalizou. No entanto, algo tinha sido diferente naquele dia. Apesar de ter tantas vezes feito aquele percurso, sempre que não tinha de ir trabalhar, notou que algo estava diferente. Depressa de apercebeu de que a diferença não estava no grito ou riso ou lamento, nem sequer nas janelas que, curiosas, olharam para ele, mas sim nele próprio, porque não há nada mais transformador do que o Olhar.
Tirou da mochila o pequeno caderno, também o lápis e esperou que o empregado por ali passasse. Não estava com pressa e também não queria usar o perpetuado “olhefáxavor”, acompanhado de um levantar de braço. E esperou um ou dois minutos, até ter ao seu lado o empregado de mesa, a quem pediu uma Água gaseificada. “Sai uma, com gás!”, disse ele, dirigindo-se ao colega que estava por detrás do balcão. Ao contrário de outros empregados, este, que se chama José, não vocifera os pedidos. Tem a voz bem colocada e projecta-a, como se num palco estivesse. É um tipo estranho, muito vivo mas discreto.

A água chegou antes mesmo de ele ter conseguido escrever duas ou três palavras no paciente caderno. Nem todas as palavras são como as cerejas, há algumas que têm um difícil parto e outras que morrem prematuramente. Construir um texto com palavras seguras e saudáveis é apanágio de apenas alguns. As palavras possuem uma personalidade vincada e mordem a mão a quem displicentemente as utiliza.
Começou por rabiscar alguns gatafunhos, antes que surgisse qualquer frase. Fazia sempre isso, não que tivesse qualquer habilidade para desenhar, mas por acreditar que assim as palavras se sentiriam mais aconchegadas, tal como acontecia junto do Era uma vez... nas histórias que lia em criança.
Ele sabia bem a dificuldade de começar a escrever, já o tinha tentado centenas de vezes e muitas delas lhe tinham deixado algum tipo de marca, que geralmente era de frustração. Esse era um sentimento que sempre o tinha acompanhado e ele tinha que o assumir como familiar, porque a família não se escolhe, calha-nos!

De repente, lembrou-se do que se tinha passado há cerca de uma hora atrás e pensou em escrever precisamente sobre isso. Mas, ao mesmo tempo, também isso lhe parecia muito pouco e ele não era nem detective, nem jornalista, para além de lhe causar um certo pudor utilizar-se do infortúnio alheio para conseguir escrever meia dúzia de páginas, que inevitavelmente iriam acabar no fundo de uma qualquer gaveta.
Fosse o que fosse que escrevesse, teria de surgir de dentro dele.

23 abril 2009

Ainda dizem vocês que as plantas têm nomes esquisitos ...















"Importante expressão de edema envolvendo a cartilagem rotuliana da faceta externa junto à crista inter-facetária. É um foco de hipersinal que corresponde a uma condromalácia de grau I e terá relação com as queixas do paciente. Existe associada uma sinovite femuro-patelar.
No estudo dos meniscos, assinalamos uma discreta irregularidade justa-capsular do corno posterior do menisco interno e zona juncional posterior, de degeneração e sem laceração evidente instalada"


Fiquei a saber que, pelo menos, também o meu menisco interno tem um corno posterior!
(há algum ortopedista* por aí?!?!??!)

*para a semana já vou ter consulta

22 abril 2009

oh-oh-oh...



Hatiora gaertneri flowers
Hatiora gaertneri

"Uma tarde sem jeito nenhum" - VII



building 080226c

Andou apenas uma centena de metros e parou sem saber realmente qual o motivo porque parara. À partida, não se tinha esquecido de nada, não encontrou ninguém conhecido, não sentiu que o devesse fazer, nem tinha chegado a nenhum local minimamente convidativo para exercer a arte da reflexão, apenas reparou que tinha parado, como se as suas pernas já não lhe obedecessem.
Esse tão aparentemente banal acontecimento deixou-o curiosamente inquieto e durante alguns segundos, que naquele momento lhe pareceram uma eternidade, tentou procurar nos rostos das pessoas que passavam e que dele se desviavam, alguma pista que justificasse aquela situação.
Acho que estou a ficar doido, pensou, mas isso já não é grande novidade, voltou a pensar.
Subitamente, de uma janela qualquer, soltou-se um grito ou um riso ou um lamento, ele não percebeu bem o que era, porque o som que ouvira tinha um pouco de grito, de riso e de lamento também. Olhou para cima, para o prédio que lhe estava mais perto e todas as janelas lhe pareceram iguais, todas se calaram e ele por todas elas se sentiu observado.
De pés ainda fincados no chão, abriu rapidamente a mochila e tirou de lá a máquina fotográfica. Não se podia deixar intimidar por umas quaisquer janelas, de um prédio que sempre ali esteve, mas que ele nunca tinha visto, e fotografou cada uma delas, como se de pessoas se tratasse, individualmente, procurando revelar-lhes a alma.

Suavemente voltou a colocar a máquina fotográfica dentro da mochila, porque acreditava que dentro dela, algures dentro daquele incrível objecto, estava um tesouro.
Tinha passado grande parte da sua vida à procura de tesouros, tal como uma criança que à beira-mar apanha pequenas pedras e conchinhas, fascinada pela sensação de descoberta. Coleccionava pedaços de tempo, nos papéis, nas fotografias, em alguns objectos que o acompanhavam quando viajava ou na pacatez da sua casa, como se ele próprio se disseminasse por cada um deles. Estava disso convencido e possivelmente teria razões para tal.
As pernas avançaram-lhe, de novo sem aviso algum, mas ele nem estranhou, nem tão pouco se apercebeu e caminhou talvez durante mais de trinta minutos. E durante todo esse tempo tentou mentalmente reproduzir aquele som que ouvira, que nem era um grito, um riso ou um lamento ou que era tudo isso junto. Que disparate perder tanto tempo com isto, quis convencer-se, que tenho eu que ver com..., hesitou. Aquele acontecimento tinha-o marcado mais do que ele queria, ou talvez não, ele queria que aquele ou outro qualquer acontecimento o ajudasse a traçar um novo rumo, não lhe interessava que nas fotografias apenas aparecessem conchas ou que na mochila nada mais estivesse do que meia dúzia de pedras, o verdadeiro tesouro é aquele que criamos dentro de nós, pois não há nada mais verdadeiro do que aquilo em que acreditamos.

20 abril 2009

"Mais uma tarde sem jeito nenhum" - VI



afternoon

Eu preciso de arejar, foi o que ele pensou. Juntou numa pequena mochila, um bloco de notas, um lápis e uma pequena máquina fotográfica digital, que a Rita lá tinha esquecido em casa e naquela tarde as velhas escadas de madeira, outrora envernizadas, pareceram-lhe um túnel, um corredor que lhe daria acesso a uma garantida sensação de liberdade ou então ao Hades. Mesmo assim, estava absolutamente decidido a correr esse risco.
O tempo da autocomiseração que, para além de constituir um sofrível leitmotiv para os seus “ensaios” e que tantas vezes lhe serviu de desculpa para uma certa letargia, tinha os dias contados, pensou ele alto ou talvez o tenha dito baixinho, não interessa. O que interessa é que saía consciente de que naquele momento levava também consigo a sua circunstância, essa carga inalienável, déspota, imponderável, transparência de aço, sombra maior do que ele próprio.
Já à porta do prédio, virou à direita, não por alguma razão especial, mas por puro hábito e seguiu em frente como se soubesse plenamente para onde ia.
A tarde já tinha atingido a sua maturidade há algumas horas. Era o seu favorito período do dia, principalmente durante o Verão, quando uma certa cor de açafrão desce sobre os telhados e pelas paredes, anunciando que tudo tem um fim, os males que nos afligem e até as coisas boas que nos acontecem.
Antes que a noite fosse dona e senhora de todos os habitantes da cidade, resolveu voltar para casa. Nessa noite dormiu pouco e, bem cedo, desceu as mesmas escadas, que lhe pareceram diferentes. Sentia-se mais leve, mas não tinha tocado na mochila. Seria a sua sombra?