12 março 2009

O Espião perfeito


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Ainda hoje permanece o mistério que envolveu a sua morte. Era o espião mais bem sucedido do seu tempo. Recebia todas as instruções através de uma caixa postal, que mudava de endereço todas as semanas, segundo uma equação de base logarítmica bastante complexa, memorizada aos 14 anos, momento em que se tornara conhecido pelos seus colegas de escola como “o base de dados”, tal era a sua facilidade em registar mentalmente tudo o que se dizia ou passava dentro e fora da sala de aula. Foi a partir desse momento que iniciou a sua actividade como espião.
A sua primeira proposta governamental chegou-lhe dissimulada numa carta de amor, que recebeu em mão, entregue por uma colega de turma que, sem qualquer sombra de dúvida, também era Espia.
Rudolfo era cirurgicamente preciso nos apontamentos que tomava e que de seguida os colocava em caixas-importantes, disfarçadas de caixas-não-importantes, guardando-as num local que, com receio de poder vir a ser descoberto, também mudava irregularmente. Sentia-se o guardião dos gestos dos que o rodeavam e dos que se cruzavam com ele e nem mesmo nos raros momentos de fragilidade pré-orgásmica a que submeteu com as poucas namoradas que teve, todas potenciais espias inimigas, claro, deixou transparecer algo que indiciasse a nobre e ultra-secreta missão de que estava incumbido.
Nunca chegou a saber para quem trabalhava, conheceu ou se deu a conhecer a outros espiões e muito menos o quanto ganhava. O que se escrevia nos jornais era tudo manipulado. Nunca nenhuma comissão parlamentar teve acesso aos seus dados pessoais.
Rudolfo escrevia quase sempre em código, para grande desespero dos professores que teve. Como consequência disso tinha apoio escolar acrescido, aproveitando esse tempo extra, que lhe dedicavam, para tomar notas complementares sobre a actuação dos professores.
O destino dado às suas informações era, obviamente, secreto. Sabia no entanto que tudo funcionava bem. A regra número um era, por precaução, não existir qualquer tipo de eco relativo às suas mensagens por parte dos destinatários. Sabe-se que tinha um nome de código e também que fez questão de o esquecer, por questões de segurança, claro.

Quanto à sua morte…teria sido realmente suicídio? homicídio? Vestígios da Guerra-fria? Futurologia da UÇK?
De uma coisa podemos ter a certeza: Rudolfo era um espião realmente digno desse nome, chegando a levar ao extremo essa sua nobre missão. Rudolfo espiava-se a si próprio. Escrevia, gravava e, quando era possível, filmava cada passo seu para assim ter provas acrescidas de defesa ou de ataque em causa própria. Isso não era nada fácil, tentar não se autodenunciar, espiar-se sem saber que estava a ser espiado. Para que todo o seu trabalho não perdesse o sentido, ele arranjou uma espécie de duplo, com identidade falsa e morada desconhecida, que o seguia a cada instante. Rudolfo questionava-se. Que escreveria o ‘outro’ sobre ele? Com certeza que trabalharia para o inimigo. Aonde é que estava o inimigo? Pagariam mais ao ‘outro’ do que a ele próprio?
Rudolfo sabia que não estava seguro e o ‘outro’ sabia bastante mais do que ele, porque apesar do esforço que fazia nesse sentido, não lhe conseguia escapar. Se calhar foi o ‘outro’ que o matou. Na verdade, ele sentia-se ameaçado já há algum tempo, pelo menos segundo o que constava nos apontamentos que o ‘outro’ tomara sobre ele e aos quais ele, através de um complicadíssimo processo de contra-espionagem, tinha conseguido ter acesso. Até agora pouco mais se sabe. Calcula-se que, algures numa caixa postal, com número de base logarítmica desconhecida e em linguagem criptada, está encerrada a verdade.


Julho 1999/ (rev. Março 2009)

Dias amenos

dream

Ah, como me apetecia passar estes dias em casa!

O'queStrada no Maxime



Às quartas-feiras, (convém chegar antes das 22:30, para arranjar mesa) durante o mês de Março. Entrada 5€, Diversão: Garantida!

10 março 2009

Entretanto, fui vendo...

Um filme interessante, que aborda a estranheza da "candura" da personagem principal, nos conturbados dias de hoje. (**)


Gostei bastante do argumento e da interpretação do "professor" que, através do ritmo de um djambé, reencontra a alegria e a razão para se voltar a apaixonar. (****)


Todas as interpretações são fabulosas. Não percam (****+)


Muito interessante, principalmente pelo facto de ser "auto-biográfico". Aviso: É deveras violento. (****)

Lindo



A Companheira
Zélia Duncan

Composição: Luiz Tatit

eu ia saindo, ela estava ali
no portão da frente
ia até o bar, ela quis ir junto
"tudo bem", eu disse
ela ficou super contente
falava bastante,
o que não faltava era assunto
sempre ao meu lado,
não se afastava um segundo
uma companheira que ia a fundo

onde eu ia, ela ia
onde olhava, ela estava
quando eu ria, ela ria
não falhava

noa dia seguinte ela estava ali
no portão da frente
ia trabalhar, ela quis ir junto
avisei que lá o pessoal era muito exigente
ela nem se abalou
"o que eu não souber eu pergunto"
e lançou na hora mais um argumento profundo
que iria comigo até o fim do mundo

me esperava no portão
me encontrava, dava a mão
me chateava, sim ou não?
não

de repente a vida ganhou sentido
companheira assim nunca tinha tido
o que fica sempre é uma coisa estranha
é companheira que não acompanha

isso pra mim é felicidade
achar alguém assim na cidade
como uma letra pra melodia
fica do lado, faz companhia

pensava nisso quando ela ali
no portão da frente
me viu pensando, quis pensar junto
"pensar é um ato tão particular do indivíduo"
e ela, na hora "particular, é? duvido"
e como de fato eu não tinha lá muita certeza
entrei na dela, senti firmeza

eu pensava até um ponto
ela entrava sem confronto
eu fazia o contraponto
e pronto

pensar assim virou uma arte
uma canção feita em parceria
primeira parte, segunda parte
volta o refrão e acabou a teoria

pensamos muito por toda a tarde
eu começava, ela prosseguia
chegamos mesmo, modesta à parte
a uma pequena filosofia

foi nessa noite que bem ali
no portão da frente
eu fiquei triste, ela ficou junto
e a melancolia foi tomando conta da gente
desintegrados, éramos nada em conjunto
quem nos olhava só via dois vagabundos
andando assim meio moribundos

eu tombava numa esquina
ela caía por cima
um coitado e uma dama
dois na lama

mas durou pouco, foi só uma noite
e felizmente
eu sarei logo, ela sarou junto
e a euforia bateu em cheio na gente
sentíamos ter toda felicidade do mundo
olhava a cidade e achava a coisa mais linda
e ela achava mais linda ainda

eu fazia uma poesia
ela lia, declamava
qualquer coisa que eu escrevia
ela amava

isso também durou só um dia
chegou a noite acabou a alegria
voltou a fria realidade
aquela coisa bem na metade

mas nunca a metade foi tão inteira
uma medida que se supera
metade ela era companheira
outra metade, era eu que era

nunca a metade foi tão inteira
uma medida que se supera
metade ela era companheira
outra metade, era eu que era

06 março 2009

Bom Fim-de-Semana!

soft blue (Veronica polita)
Veronica polita

Vou para o Oeste, depois de uma ausência de mais de dois meses.
Deixo-vos uma canção para dedicarem a quem sintam que mais vos faz falta.

05 março 2009

Calor



plane 061108

Passavam alguns minutos depois das dez e o dia tinha saído há pouco. Deveria ter ficado em casa, até porque estava tudo arrumado de uma forma aleatória, mas não quis. Agosto era o próximo mês, mas o calor tinha atingido já os limites suportáveis, pelos que menos suportam os limites que o calor atinge. Ao menos na rua, embora o calor seja o mesmo que em casa, durante a noite não se sufoca tanto.
Andou alguns quarteirões a pé, sem destino e, quando deu por ele, estava em frente a um portão de jardim. Entrou, sentou-se num banco que lhe pareceu convidativo e esperou. Esperou, até que o esperar lhe deu sono e adormeceu, como quem adormece numa banheira.
Sem saber quanto tempo tinha passado, acordou. Pestanejou, porque os olhos pesavam-lhe tanto quanto o corpo dorido do calor e julgou sonhar. Mesmo aos seus pés dormia, deitada na relva, uma mulher. Endireitou as costas nas costas do banco e, sem saber que fazer ou se deveria fazer alguma coisa, esperou muitos minutos pelo seu acordar. Não aguentando mais a espera, levantou-se e saiu do jardim, não sem olhar para trás a cada dois passos que dava.

Voltou durante anos, porque voltar é praticamente inevitável, até mesmo ao erro, até que um dia adormeceu na relva e, sem saber, também ele esteve aos pés dela. Quando acordou, viu-a sair do jardim e nessa altura percebeu que também tinha estado no sonho dela.


Julho 1994

Voluntári@s...

roofs
"Tarujo - Campolide"

...para o "Conto à Sexta"... da próxima semana... ou da seguinte????

04 março 2009

Possivelmente


claustro convento da encarnação III

Ontem, dia 3 de Março, tive o privilégio de ter tido uma visita guiada e personalizada ao Convento da Encarnação, acompanhado pela sua tremendamente simpática Directora. Para além de lhe ter mostrado algumas imagens do meu trabalho, estivemos a ver os espaços passíveis de receber uma possível e futura exposição minha, cujo motivo/assunto será o próprio espaço envolvente.
A riqueza do espaço é tanta, que vai ser difícil circunscrever-me a um ou dois motivos só. No entanto, ficou combinado de que, sensivelmente a partir de 15 de Abril, aproveitando a generosidade dos dias grandes, terei "carta verde" para entrar e trabalhar onde quiser.
O resultado desse trabalho será então exposto (quase de certeza) no interior do Convento, pois os Claustros estão sujeitos à intempérie e à consequente degradação das peças.
Terei então cerca de um mês para terminar a preparação da exposição de Jaén e poder começar com este novo projecto. Entretanto, estou à espera de saber se também por volta de 15 de Abril irei expor (trabalhos mais antigos) numa Sala perto do Campo Mártires da Pátria.
Também surgiu a hipótese de levar o meu trabalho até Bilbao... mas é só uma hipótese!

igreja convento da encarnação

Hoje passarei ainda pela Sala do Veado (Museu de História Natural), onde inaugura uma exposição da obra do (Capê) Barahona Possollo. Tem um trabalho (clássico) arrebatador.